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O PRESENTE CHAMADO HOJE – Por Wilton Emiliano Pinto

Missias
1 de julho de 2026 às 13:34
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O PRESENTE CHAMADO HOJE –  Por Wilton Emiliano Pinto
Divulgação / DayNews

Durante muitos anos, imaginei que a felicidade estivesse sempre um pouco mais adiante.

 

Era só realizar mais um sonho, concluir mais um projeto, comprar alguma coisa ou voltar a um lugar que marcou minha vida.

 

Sempre existia um “depois”.

 

Mas o tempo é um grande professor.

 

Foi ele quem me ensinou que a vida não mora no amanhã.

Ela mora no hoje.

 

Hoje não é apenas mais uma data no calendário.

Não é somente uma folha arrancada da agenda.

Hoje é tudo o que realmente possuo.

 

O ontem transformou-se em lembrança.

O amanhã continua sendo uma esperança que ninguém pode garantir.

 

Talvez seja por isso que, ao abrir os olhos todas as manhãs, eu sinta uma gratidão silenciosa.

 

Aos oitenta e um anos, cada amanhecer deixou de ser rotina. Tornou-se um privilégio.

 

Antes mesmo de o sol nascer, gosto de ir até a janela.

Ainda em silêncio, olho para o céu.

Nunca o encontro igual ao dia anterior.

 

As nuvens mudam de lugar.

A claridade chega diferente.

O vento sopra de outra maneira.

 

Parece que a natureza faz questão de repetir, todos os dias, uma mesma lição: nada permanece igual. E é exatamente por isso que tudo tem tanto valor.

 

À noite, esse sentimento continua.

Talvez fique ainda mais forte.

 

Da janela do meu apartamento, gosto de contemplar a cidade.

Vejo milhares de pequenas luzes acesas.

 

E não consigo olhar para elas sem imaginar a vida acontecendo atrás de cada janela.

 

Alguém está jantando.

Outro está assistindo televisão.

 

Há quem esteja conversando, estudando, trabalhando, rezando, rindo ou simplesmente descansando.

 

Em alguma daquelas janelas existe uma criança sonhando.

Em outra, um casal comemorando.

Em outra, alguém enfrentando uma dificuldade em silêncio.

 

Cada luz representa uma história.

Cada apartamento abriga um universo inteiro.

E todos estão vivendo o único tempo que realmente existe:

o agora.

 

A natureza sempre foi uma das minhas maiores paixões.

 

Aprendi muito mais sentado à beira do Rio do Peixe do que em muitos livros que li.

 

Foi ali que compreendi que a água nunca passa duas vezes da mesma maneira.

 

Assim também é a vida.

 

Cada instante segue seu caminho sem fazer alarde.

Quando percebemos, ele já passou.

 

Passei boa parte da minha existência trabalhando, criando meus filhos, escrevendo minhas histórias, registrando lembranças e realizando sonhos que, um dia, pareciam impossíveis.

 

Alguns se realizaram.

Outros ficaram pelo caminho.

Mas nenhum deles foi inútil.

 

Todos ajudaram a construir o homem que hoje encontro diante do espelho.

E gosto da pessoa que vejo.

 

Não porque tenha sido perfeita.

Muito pelo contrário.

 

Vejo alguém que acertou, errou, caiu, levantou e recomeçou muitas vezes.

Alguém que sempre procurou distribuir respeito, amizade e carinho por onde passou.

 

Hoje também aprendi a olhar melhor para as pessoas.

 

Cada rosto carrega uma história que desconheço.

Cada sorriso pode esconder uma luta que ninguém imagina.

 

Isso me ensinou a julgar menos e compreender mais.

 

Também passei a agradecer pelas coisas simples.

A água limpa que chega à torneira. Milhões de pessoas no mundo não tem essa dádiva.

 

A luz que ilumina a casa.

O café quente sobre a mesa.

A voz de quem amo.

Uma boa conversa.

Um telefonema inesperado.

Um abraço sincero.

 

Durante muito tempo achei que tudo isso fosse natural.

Hoje sei que não.

Tudo isso é presente.

 

Talvez o maior ensinamento que a idade tenha me dado seja exatamente este:

a verdadeira riqueza não está naquilo que conseguimos acumular durante a vida.

 

Ela está na capacidade de perceber as pequenas maravilhas que nos acompanham todos os dias e que, muitas vezes, passam despercebidas.

 

Não sei quantos amanheceres ainda receberei.

E, sinceramente, isso já não me preocupa tanto.

 

O que importa é viver bem o dia que me foi confiado.

 

Quero continuar espalhando serenidade, ainda que seja através de pequenos gestos.

 

Que um sorriso possa aliviar uma tristeza.

Que uma palavra possa despertar uma esperança.

Que minhas histórias façam alguém acreditar que vale a pena viver com intensidade.

 

Quando a noite chegar, quero apenas poder dizer a mim mesmo:

Hoje eu vivi.

 

E, se amanhã chegar, será mais um presente.

 

Se não chegar, partirei agradecido por todos os dias que recebi.

 

Porque a vida nunca foi medida pela quantidade de dias que vivemos.

 

Ela é medida pela gratidão com que escolhemos viver cada um deles.

Wilton escreve com os olhos de quem aprendeu a contemplar a vida.