Foto: Reuters / BBC News Brasil
Teerã atribui decisão a suposta quebra de compromissos assumidos por Washington; governo americano afirma não haver sinais de bloqueio da rota marítima
A tensão no Oriente Médio voltou a aumentar poucos dias após a divulgação de um novo acordo entre Estados Unidos e Irã voltado para a interrupção das hostilidades na região. Neste sábado (20), autoridades iranianas anunciaram que pretendem fechar novamente o estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta para o transporte de energia, alegando que Washington teria descumprido compromissos assumidos no entendimento firmado entre as partes.
Segundo as Forças Armadas iranianas, a medida seria uma resposta ao que classificaram como uma “violação flagrante da promessa feita pelos Estados Unidos”, referência direta ao acordo de 14 pontos divulgado na última quarta-feira (17).
Entre os itens do documento está a determinação de uma “cessação imediata e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo no Líbano”, considerada por Teerã um dos pilares centrais do entendimento que buscava reduzir as tensões regionais e encerrar o conflito.
Acusações surgem após ataques no sul do Líbano
A manifestação do governo iraniano ocorreu após informações sobre novos ataques israelenses no sul do Líbano. De acordo com relatos divulgados por agências internacionais, as ofensivas teriam provocado a morte de pelo menos 20 pessoas menos de um dia após o anúncio de um novo cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah, organização política e militar sediada no Líbano.
Para o governo iraniano, os episódios colocam em dúvida a efetividade dos compromissos assumidos no acordo recente e reforçam as acusações de que os Estados Unidos não garantiram o cumprimento dos termos estabelecidos.
Washington contesta versão iraniana
Apesar da declaração de Teerã, autoridades americanas afirmam que não há sinais concretos de interrupção do tráfego marítimo no estreito de Ormuz.
Durante entrevista coletiva realizada na manhã deste sábado, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, rejeitou a informação divulgada pelos iranianos.
“nenhuma evidência de que os iranianos estejam fechando o estreito.”
A declaração busca tranquilizar mercados e governos que acompanham com atenção qualquer movimentação envolvendo a passagem marítima, considerada essencial para o abastecimento energético global.
Importância estratégica do estreito de Ormuz
Localizado entre o Irã, os Emirados Árabes Unidos e Omã, o estreito de Ormuz é uma das principais rotas comerciais do mundo. Estima-se que aproximadamente 20% de todo o petróleo e do gás natural liquefeito negociados internacionalmente atravessem diariamente a região.
O corredor marítimo já esteve no centro de crises recentes. Após ataques realizados por Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos em fevereiro, Teerã interrompeu temporariamente a circulação de embarcações na área, provocando forte impacto nos mercados internacionais e impulsionando os preços globais do petróleo.
Especialistas alertam que qualquer nova restrição ao tráfego marítimo pode gerar consequências econômicas significativas, afetando cadeias de abastecimento e elevando os custos da energia em diversas regiões do planeta.
Futuro do acordo gera incertezas
Na avaliação de Jon Donisson, correspondente da BBC em Israel, o entendimento firmado entre Teerã e Washington apresentava fragilidades desde sua assinatura e já demonstra sinais de desgaste.
“A reabertura parcial do estreito de Ormuz foi a principal conquista do acordo e uma prioridade para os Estados Unidos, que buscavam evitar uma crise econômica global”, escreve Donisson.
Segundo o jornalista, o foco das atenções passa agora a estar voltado para a atuação do presidente americano Donald Trump e sua capacidade de influenciar os próximos passos de Israel na região.
“Agora, a atenção se volta para o presidente Trump, para ver que tipo de pressão poderá ser exercida sobre seu aliado, Israel, para forçar o país a conter sua operação militar no Líbano.”
Críticas dos Estados Unidos a Israel aumentam pressão diplomática
Donisson observa ainda que a nova escalada ocorre em um contexto de crescente desconforto entre Washington e Tel Aviv. Nas últimas semanas, integrantes do governo americano fizeram críticas públicas às operações militares israelenses conduzidas no sul do Líbano.
De acordo com a análise, autoridades dos Estados Unidos chegaram a acusar as forças israelenses de empregar força excessiva durante as ações militares, um posicionamento incomum entre aliados históricos e que amplia as incertezas sobre a sustentação do acordo anunciado recentemente.
Com acusações mútuas, ataques persistentes e divergências sobre o cumprimento dos compromissos assumidos, o cenário no Oriente Médio volta a gerar preocupação internacional, especialmente devido ao potencial impacto econômico e geopolítico associado ao estreito de Ormuz e à continuidade dos confrontos na região.

