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Terremotos na Venezuela reacendem debate sobre qualidade de conjuntos habitacionais erguidos durante o chavismo

João Oliveira
4 de julho de 2026 às 08:07
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Terremotos na Venezuela reacendem debate sobre qualidade de conjuntos habitacionais erguidos durante o chavismo
Divulgação / DayNews
A imagem aérea revela os estragos causados pelos terremotos em La Guaira, com edifícios devastados e ruínas espalhadas pela paisagem. MIGUEL MEDINA/Pool via REUTERS

Especialistas relacionam falhas estruturais, fiscalização insuficiente e características do solo ao elevado nível de destruição observado após os abalos sísmicos

Conjuntos habitacionais entram no centro das análises

Os fortes terremotos que atingiram a Venezuela na última semana deixaram um rastro de destruição e intensificaram o debate sobre a segurança de edificações públicas construídas nas últimas décadas. Enquanto as equipes de resgate seguem mobilizadas em busca de sobreviventes sob os escombros, o número de vítimas continua aumentando e já ultrapassa 2.500 mortos.

Em meio às discussões sobre os fatores que contribuíram para a magnitude da tragédia, especialistas têm direcionado atenção para a chamada “arquitetura chavista”, termo utilizado para identificar conjuntos habitacionais construídos durante as administrações de Hugo Chávez (1999–2013) e Nicolás Maduro (2013–2026). Segundo analistas, a qualidade das obras e os mecanismos de fiscalização empregados ao longo desse período passaram a ser alvo de novos questionamentos.

Urbanismo Hugo Chávez está entre os locais mais afetados

Entre os exemplos que concentram maior atenção está o conjunto habitacional Urbanismo Hugo Chávez, localizado em Catia La Mar, no estado de La Guaira. O empreendimento foi construído dentro de um programa habitacional voltado a famílias que haviam perdido suas residências após uma enchente histórica registrada anos antes na região.

Com a ocorrência dos terremotos, o complexo tornou-se uma das áreas mais castigadas. Grande parte das mais de 190 edificações sofreu danos severos ou foi completamente destruída, ampliando as preocupações sobre a resistência estrutural das construções.

Imagens de satélite apontam extensão dos danos

Levantamento realizado pelo laboratório AI for Good, da Microsoft, com base em imagens de satélite, indica que aproximadamente um terço das quase 30 mil estruturas existentes em Catia La Mar apresentou algum grau de comprometimento.

Apesar desse diagnóstico inicial, especialistas ressaltam que ainda não há conclusões definitivas sobre os motivos que levaram cada edifício ao colapso. Engenheiros defendem a realização de inspeções técnicas detalhadas nos prédios que permaneceram de pé para avaliar as condições estruturais e reduzir o risco de novos desabamentos.

Especialistas apontam combinação de fatores

De acordo com a emissora alemã Deutsche Welle, profissionais da área afirmam que diversos elementos podem ter contribuído para ampliar os impactos dos terremotos. Entre eles estão possíveis fragilidades estruturais em parte das edificações públicas, deficiência na fiscalização das obras ao longo dos anos e as características geológicas do solo de La Guaira.

Moradora do edifício “Los Cocos”, um dos blocos pertencentes ao conjunto Urbanismo Hugo Chávez, Yelsa Rojas disse à Deutsche Welle que “perdeu todo o apartamento”. Ela relatou que estava fora de casa quando os tremores ocorreram e acredita que todos os moradores do segundo andar não sobreviveram ao desabamento.

Programa habitacional enfrenta novos questionamentos

O programa de habitação iniciado durante o governo de Hugo Chávez e posteriormente ampliado por Nicolás Maduro tinha como principal objetivo reduzir o déficit habitacional venezuelano por meio da construção de milhões de moradias.

Entretanto, especialistas avaliam que parte desses empreendimentos foi executada em ritmo acelerado por empresas estatais e construtoras estrangeiras, em um contexto marcado por baixa transparência. Em alguns casos, os projetos também teriam sido implantados em áreas consideradas geologicamente sensíveis.

Na avaliação de engenheiros e arquitetos, o modelo de centralização das decisões administrativas, aliado ao enfraquecimento dos mecanismos de fiscalização institucional, pode ter comprometido os processos de controle de qualidade das obras. Segundo esses profissionais, a combinação entre construções executadas rapidamente, possível descumprimento de normas técnicas e instabilidade do terreno pode ter potencializado os efeitos destrutivos dos terremotos.

Avaliações técnicas buscam prevenir novos desastres

Diante da gravidade da situação, grupos formados por engenheiros e arquitetos passaram a atuar de forma voluntária na inspeção das estruturas remanescentes. O trabalho consiste em avaliar o nível de comprometimento dos edifícios, identificar riscos de novos colapsos e fornecer orientações técnicas às autoridades e aos moradores das regiões afetadas.

As análises deverão subsidiar futuras decisões sobre interdições, reforços estruturais e eventuais demolições, além de contribuir para o planejamento das ações de reconstrução nas áreas atingidas.