Desigualdade estrutural no campo: mulheres lideram propriedades, mas não o território
As mulheres brasileiras já administram 19% das propriedades rurais do país — um total de 947 mil estabelecimentos —, mas seu protagonismo no campo esbarra em uma realidade paradoxal: elas controlam apenas 8,5% da área total cultivável, segundo o estudo “Mulheres nas Cadeias de Valor do Agronegócio Brasileiro”, conduzido pela Fundação IDH com apoio do Fundo AGRI3, cujos dados foram consolidados até esta data.
Pequenas áreas, baixa renda e concentração fundiária: o retrato da desigualdade
Dos 30 milhões de hectares geridos por mulheres — equivalente a 8,5% da área rural brasileira —, a maioria (77,8%) corresponde a propriedades de até 20 hectares, predominantemente vinculadas à agricultura familiar ou a heranças. Essa concentração em minifúndios reflete não apenas a histórica exclusão do acesso à terra, mas também a persistência de um modelo que limita o crescimento econômico feminino no setor. A renda é outro indicador crítico: apenas 17,4% das mulheres no agronegócio recebem mais de três salários mínimos, enquanto entre os homens esse percentual supera os 30%, segundo recortes do estudo.
Crédito, liderança e representatividade: os nós que ainda não foram desatados
A pesquisa identificou que as mulheres enfrentam barreiras adicionais para acessar linhas de crédito — muitas vezes dependendo de garantias masculinas para obter financiamento —, além de ocupar menos de 15% dos cargos de liderança em cooperativas e sindicatos rurais. A baixa participação em espaços decisórios, como câmaras setoriais e conselhos de políticas agrícolas, perpetua um ciclo de invisibilidade, onde suas demandas são sistematicamente adiadas. “O agronegócio brasileiro não pode mais ignorar que a exclusão feminina representa um custo de oportunidade estimado em R$ 15 bilhões anuais, segundo projeções do Banco Mundial”, alerta a coordenadora do estudo, Dra. Camila Santos.
Iniciativas em andamento: sinais de mudança ou apenas retórica?
Embora programas como o Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF) e iniciativas privadas de capacitação tenham ampliado o acesso de mulheres a recursos nos últimos anos, os avanços são lentos. No entanto, casos isolados de sucesso — como cooperativas lideradas por mulheres no Sul e Sudeste, que aumentaram sua produtividade em até 40% após a implementação de políticas de inclusão — sugerem que o caminho da equidade é viável. “O desafio não é técnico, mas político. Precisamos de políticas públicas permanentes, não de ações pontuais”, defende a economista agrícola Maria Oliveira, da FGV Agro.
( Com CNN Brasil )

