Há alguns dias, eu e minha esposa Itacira fizemos uma visita à sua irmã, Dilce.
Voltei para casa com o coração silencioso e cheio de pensamentos.
Foi dessa visita que nasceram estas palavras.
Há uma idade em que os pedidos mudam de endereço.
Na juventude, pedimos conquistas. Sonhamos com prosperidade, reconhecimento, grandes realizações e muitos anos pela frente.
Com o tempo, descobrimos que a verdadeira riqueza não está naquilo que ainda desejamos conquistar, mas naquilo que aprendemos a compreender.
Hoje, aos oitenta e um anos, meus pedidos cabem em poucas palavras.
EU SÓ PEÇO A DEUS que a vida nunca me passe despercebida.
Não quero que os dias sejam apenas folhas arrancadas do calendário.
Quero enxergar o sentido escondido em cada amanhecer.
Quero compreender por que algumas pessoas conservam suas memórias até o último dia, enquanto outras as veem desaparecer lentamente, como folhas que o tempo vai levando uma a uma.
Quero reconhecer que até as dores tiveram sua utilidade, porque foram elas que, silenciosamente, esculpiram a serenidade que hoje me acompanha.
EU SÓ PEÇO A DEUS que minhas lembranças nunca se despeçam de mim.
Que eu continue reconhecendo os rostos que amo.
Que meu nome continue fazendo sentido.
Que minha história permaneça viva dentro de mim.
Ainda quero lembrar da fazenda onde nasci, em Estulânia.
Quero continuar ouvindo, dentro de mim, o canto do galo anunciando o amanhecer.
Quero sentir o cheiro da terra molhada depois da chuva.
Quero recordar:
os bons tempos do Colégio Pedro Gomes,
os desafios da juventude,
os passeios pelo Rio do Peixe,
as idas à Marialva,
o casamento com Itacira,
o nascimento dos filhos,
as viagens em família
e a chegada dos netos.
Todas essas lembranças são bênçãos que o tempo foi depositando em minhas mãos.
Porque um homem não vive apenas os acontecimentos.
Vive, sobretudo, as lembranças que consegue guardar.
EU SÓ PEÇO A DEUS que eu nunca perca a capacidade de me emocionar.
Que uma canção ainda me conduza de volta a um tempo distante.
Que uma fotografia continue despertando sorrisos.
Que uma conversa sincera ainda aqueça meu coração.
Que um abraço continue valendo mais do que muitas palavras.
Enquanto eu for capaz de me emocionar, saberei que continuo plenamente vivo.
EU SÓ PEÇO A DEUS que eu continue sendo útil.
Enquanto minhas mãos puderem escrever uma lembrança, minhas palavras puderem levar esperança e meu coração permanecer disposto a servir, saberei que minha caminhada ainda faz sentido.
Descobri que envelhecer não significa esperar pelo fim.
É aprender novas maneiras de servir.
Se, ao final de cada dia, eu puder deixar um pouco de paz no coração de alguém, aquele dia já terá valido a pena.
EU SÓ PEÇO A DEUS que a morte não tenha pressa.
Não porque eu tenha medo dela.
A morte faz parte da vida, assim como o pôr do sol faz parte do dia.
O que desejo é apenas mais algum tempo para contemplar a estrada que percorri.
Quero olhar para trás e perceber que cada pedra ajudou a construir o caminho.
Que os erros me ensinaram humildade.
Que os acertos me ensinaram gratidão.
Que as perdas me ensinaram a valorizar os encontros.
Quero partir sabendo que procurei viver da melhor maneira que pude.
Sem perfeição.
Mas com sinceridade.
E, se naquele último instante, eu ainda puder reconhecer minha família…
Lembrar meu nome.
Revisitar minhas memórias.
E agradecer por tudo o que vivi…
Então não terei mais nada a pedir.
Compreenderei que a vida jamais foi medida pelo número de anos que recebi.
Foi medida pela consciência com que os vivi.
Aí, fecharei os olhos em paz.
Sabendo que minha passagem por este mundo não foi apenas uma sucessão de dias.
Foi uma história.
Não perfeita.
Mas profundamente vivida.
E esse terá sido o maior presente que Deus poderia me conceder.
Porque, no fim das contas, descobri que a maior bênção não foi viver muitos anos.
Foi permanecer consciente da beleza escondida em cada um deles.


