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Entre páginas e silêncios – Por Wilton Emiliano Pinto

Missias
22 de junho de 2026 às 12:50
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Entre páginas e silêncios  – Por Wilton Emiliano Pinto
Divulgação / DayNews

Outro dia, ao abrir uma velha revista esquecida na gaveta, meus olhos pararam num texto simples sobre a importância da leitura.

Nada de palavras difíceis, nenhuma filosofia complicada. Apenas a velha verdade que atravessa os séculos:

quem lê, conversa com a própria alma.

Fiquei ali, alguns minutos, olhando mais para dentro de mim do que para as letras impressas.

A idade ensina certas coisas. Ensina, por exemplo, que o corpo envelhece devagar, quase sem pedir licença.

Primeiro são os cabelos que embranquecem.

Depois vem o cansaço nas pernas, a dificuldade para dormir, os nomes que às vezes fogem da memória.

Mas existe algo curioso:

quando a mente continua passeando pelos livros, parece que o tempo perde um pouco da força.

Ler nunca foi apenas juntar palavras.

É viajar sem sair da cadeira.

É voltar a lugares que já desapareceram do mapa da vida.

Enquanto lia aquele artigo, me vi novamente menino, lá na fazenda da mata, em Estulânia.

Parecia que eu ainda escutava o cantar do galo na madrugada e o ranger da roda do carro de boi cortando o terreiro úmido.

Naquele tempo quase não havia livros.

A vida era mais feita de enxada, leite tirado no curral e conversa ao redor do fogão.

Mesmo assim, sem perceber, nós já fazíamos leituras.

Líamos o céu para saber se vinha chuva.

Líamos o semblante cansado de nosso pai depois de um dia inteiro de trabalho.

Líamos o silêncio de nossa mãe quando a preocupação apertava.

A vida também escreve seus livros invisíveis.

Mais tarde vieram as escolas, os jornais, os discursos estudantis do velho Pedro Gomes, os livros de contabilidade espalhados sobre a mesa, já depois do casamento.

E vieram também as leituras da alma, aquelas que não aparecem nas estantes.

Porque existe um tipo de leitura que só o sofrimento ensina.

Quando perdemos pessoas queridas, passamos a compreender palavras que antes pareciam vazias.

A saudade, por exemplo. Enquanto jovem, a gente acha que saudade é apenas ausência.

Com os anos descobrimos que não. Saudade é presença diferente.

É alguém que continua morando dentro da gente.

Talvez por isso os livros façam tanto bem.

Eles nos impedem de endurecer.

Um homem que lê continua conversando com o mundo, mesmo quando o mundo já anda depressa demais para ele.

A leitura abre janelas onde a idade, às vezes, tenta construir paredes.

E não estou falando apenas de livros famosos, desses que recebem aplausos da crítica.

Às vezes uma simples página esquecida numa revista antiga desperta pensamentos que estavam adormecidos havia décadas.

Uma frase pode reacender uma vida inteira.

Foi assim comigo.

Ao terminar aquele texto, fiquei pensando quantas pessoas envelhecem apenas por fora, enquanto outras envelhecem também por dentro.

O perigo maior não é o cabelo branco.

É quando os pensamentos ficam cansados.

Quando a curiosidade morre.

Quando já não existe vontade de aprender, recordar ou sonhar.

Quem deixa de ler vai se fechando devagar, como casa abandonada.

As janelas criam poeira.

As portas rangem.

E o silêncio começa a morar ali.

Já o hábito da leitura faz justamente o contrário:

abre claridade onde antes havia sombra.

Um bom livro nos obriga a pensar, e pensar é uma maneira bonita de permanecer vivo.

Hoje, aos 81 anos, percebo que ainda continuo viajando.

Não com a rapidez dos jovens, nem com a força de antigamente.

Mas viajo pelas lembranças, pelas histórias e pelas páginas que ainda encontro pelo caminho.

E talvez seja isso o mais importante.

O ser humano não vive apenas de alimento para o corpo. Vive também de alimento para o espírito.

Assim como a terra seca precisa da chuva mansa para continuar fértil, a alma precisa das palavras para não endurecer.

Por isso, sempre que vejo alguém lendo em silêncio, sinto um certo respeito.

Ali, diante dos nossos olhos, existe uma pessoa conversando consigo mesma.

E poucas conversas na vida são tão importantes quanto essa.

Quem cultiva o hábito da leitura nunca envelhece por inteiro; sempre existe uma página mantendo acesa a luz da alma.