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Quando Éramos Dez – Por Wilton Emiliano Pinto

Missias
14 de julho de 2026 às 18:15
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Quando Éramos Dez –  Por Wilton Emiliano Pinto
Divulgação / ClickNews

Domingo passado, voltamos a visitar a Dilce, irmã de minha esposa.

Foi por vê-la naquela situação, é que escrevi a crônica “Eu Só Peço a Deus”, publicada há alguns dias.

 

A Dilce convive há anos com o Alzheimer. E acompanhar, pouco a pouco, o desaparecimento das lembranças de alguém que amamos é uma experiência que muda a maneira como passamos a enxergar a vida.

Desde então, descobri que a memória é um dos bens mais preciosos que uma pessoa pode possuir.

E também um dos mais frágeis.

Talvez por isso essa visita tenha me tocado de um jeito diferente.

Na sala estavam reunidas quatro irmãs e um irmão.

Com a chegada de minha esposa, passaram a ser seis dos sete irmãos ainda vivos.

Apenas um não pôde comparecer.

 

O café passava de mão em mão.

As conversas também.

Até que a irmã mais velha, Zaira, fez aquilo que só os mais velhos conseguem fazer com tanta naturalidade.

Abriu a porta do passado.

Sem consultar cadernos.

Sem fotografias.

Sem documentos.

Apenas lembrando.

E foi assim, lembrando, que ela nos levou para Bom Jardim de Goiás.

Depois para Piranhas.

Mais tarde para Inhumas.

Finalmente para Goiânia.

Cada cidade guardava um pedaço da história.

Cada lembrança parecia despertar outra.

 

E, enquanto ela falava, era como se todos voltassem a ser crianças outra vez.

Eram dez irmãos.

Seis mulheres.

Quatro homens.

Os pais, Euquério e Arlinda, partiram cedo demais.

Poderia ter sido o fim daquela unidade.

A vida costuma espalhar as pessoas.

O trabalho muda destinos.

Os casamentos mudam os endereços.

Os filhos ocupam o tempo.

As décadas fazem o resto.

Mas não foi assim.

 

Os irmãos mais velhos assumiram, naturalmente, a missão de manter a família unida.

Talvez sem perceber.

Talvez apenas repetindo o exemplo que receberam dentro de casa.

A maior herança deixada pelos pais nunca foi material.

Foi a certeza de que um irmão jamais deixa de ser irmão.

Hoje, três deles já partiram.

Stalin. Clélia. Erlick.

Restam sete.

 

E ver seis deles sentados na mesma sala, conversando como se o tempo tivesse apenas feito uma pequena pausa, foi um privilégio difícil de explicar.

 

Em determinado momento, alguém disse uma frase que ficou ressoando dentro de mim.

Precisamos registrar essa história.

Não era uma preocupação com o passado.

Era um compromisso com o futuro.

Os filhos cresceram.

Vieram os netos.

Agora chegam os bisnetos.

Muitos já não conheceram os avós.

Outros jamais ouviram falar das dificuldades enfrentadas por aqueles dez irmãos.

Como poderão sentir orgulho de uma história que ninguém lhes contou?

 

Foi então que compreendi que aquela conversa não era apenas uma roda de recordações.

Era um patrimônio.

Daqueles que não cabem em escrituras.

Nem em contas bancárias.

Mas enriquecem gerações inteiras.

 

Enquanto observava aqueles irmãos conversando, lembrei-me novamente da Dilce.

Pensei em como o Alzheimer vai apagando lembranças dentro de uma pessoa.

Depois percebi que existe outro esquecimento, muito mais silencioso.

Aquele que acontece quando ninguém registra as histórias da família.

Nesse caso, não é uma doença que apaga.

É o tempo.

E o tempo trabalha todos os dias.

Sem descanso.

Mas, às vezes, ele encontra quem lhe faça resistência.

 

Curiosamente, enquanto eu escrevia esta crônica, sem que soubéssemos um do outro, minha filha iniciava exatamente o caminho que aquela conversa parecia pedir.

Movida pela mesma preocupação, ela começou a reunir fotografias, lembranças e relatos para transformá-los em um e-book sobre a história da família.

Quando ela me contou, senti que aquela frase ouvida na roda de conversa já havia encontrado resposta.

A história começava a ser preservada.

 

E talvez esse seja apenas o primeiro capítulo.

Porque nenhuma família cabe na memória de uma única pessoa.

Cada irmão guarda lembranças que os outros esqueceram.

Cada filho conhece histórias que ouviu apenas dentro de casa.

Cada neto conserva uma fotografia, uma carta, uma receita, um objeto ou um pequeno acontecimento que ajuda a completar esse grande mosaico.

 

Contem como era a casa.

Como eram os pais.

As dificuldades.

As brincadeiras.

Os medos.

As festas.

Os causos.

Os apelidos.

As viagens.

As alegrias.

Até aquilo que hoje parece sem importância poderá emocionar alguém daqui a cinquenta anos.

 

Tenho certeza de que, à medida que esse trabalho avançar, outras vozes se juntarão a ele.

Uma lembrança chamará outra.

Uma fotografia despertará um nome.

Um nome fará surgir um novo episódio.

E assim, pouco a pouco, a história da família Garcia continuará sendo escrita pelas mãos de todos.

Talvez algumas lembranças não coincidam.

E isso também faz parte.

A memória nunca foi uma fotografia.

Ela é feita de sentimentos.

De olhares.

De diferentes maneiras de viver o mesmo momento.

O importante é que essas histórias permaneçam.

Que atravessem o tempo.

Que encontrem os filhos.

Os netos.

Os bisnetos.

E aqueles que ainda nem nasceram.

Porque chega um dia em que as pessoas partem.

Mas as histórias…

As histórias continuam caminhando.

 

E, felizmente, nesta família, elas já começaram a encontrar um lugar onde permanecer.

Wilton escreve sobre as histórias que só continuam vivas quando alguém decide contá-las.