Empresas brasileiras e americanas alertam que sobretaxa de Trump pode encarecer produtos nos Estados Unidos, enquanto o governo Lula tenta manter a negociação no campo diplomático
Audiência no USTR reúne pedidos por exceções ao tarifaço
O primeiro dia da audiência pública conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, foi dominado por apelos de empresas e entidades produtivas para que seus setores sejam poupados da tarifa de 25% ameaçada pelo governo Donald Trump contra produtos brasileiros.
Representantes empresariais argumentaram que a medida, caso seja confirmada, não atingiria apenas exportadores do Brasil. Segundo os participantes, a sobretaxa também elevaria custos para companhias americanas, pressionaria preços ao consumidor nos Estados Unidos e poderia afetar investimentos e cadeias de fornecimento já consolidadas entre os dois países.
A audiência é vista como a última fase pública da investigação comercial aberta por Washington antes da decisão final, prevista para 15 de julho. O governo brasileiro enviou uma representante da embaixada em Washington para acompanhar os debates. O Itamaraty, no entanto, não considera a sessão um espaço formal de negociação, mas uma etapa destinada a ouvir manifestações de empresas, entidades e representantes da sociedade civil.
Planalto busca saída diplomática, mas vê componente eleitoral
O governo Lula aposta em uma solução negociada para tentar reverter a ameaça de tarifa. A estratégia inclui uma nova reunião com o representante comercial americano, Jamieson Greer, e a oferta de redução de alíquotas em áreas nas quais empresas dos Estados Unidos têm forte presença no mercado brasileiro.
Apesar disso, setores do governo demonstram ceticismo. A avaliação interna é que, em meio ao calendário eleitoral americano de outubro, a gestão Trump teria pouco interesse em permitir que Lula apresente uma eventual suspensão das tarifas como vitória política.
Flávio Bolsonaro tenta influenciar debate em Washington
Em viagem aos Estados Unidos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, participa nesta terça-feira (7) do segundo dia de audiência no USTR. Antes disso, ele encaminhou ao órgão um documento de 86 páginas em que pede a suspensão das tarifas, a retirada do Pix da disputa comercial e a abertura de uma negociação bilateral entre Brasil e Estados Unidos.
No texto, o senador sustenta que a adoção da sobretaxa poderia favorecer politicamente o presidente Lula. Ele também defende que sanções individuais contra autoridades brasileiras seriam uma alternativa mais eficaz do que medidas comerciais amplas.
No Palácio do Planalto, a avaliação é que, caso as tarifas não sejam aplicadas, Flávio Bolsonaro tentará reivindicar protagonismo na decisão, atribuindo o resultado à sua interlocução com integrantes da gestão Trump. Auxiliares de Lula afirmam que, se isso ocorrer, o governo disputará a narrativa publicamente.
Governo apresenta roteiro para responder a questionamentos dos EUA
Para tentar reduzir o peso de fatores políticos na decisão americana, o governo brasileiro elaborou um conjunto de propostas voltadas aos seis temas mencionados na conclusão da investigação aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.
O documento, tratado internamente como um “mapa do caminho”, inclui medidas nas áreas de comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, etanol e enfrentamento ao desmatamento ilegal.
Entre as iniciativas em análise está a redução de tarifas de importação para segmentos dominados por empresas americanas, como máquinas, equipamentos médicos e tecnologia da informação. O texto, porém, não aborda o Pix, um dos pontos citados na investigação comercial.
CNI vê risco para mais de 4 mil produtos exportados
Levantamento da Confederação Nacional da Indústria aponta que, se forem aplicadas tanto a tarifa de 25% quanto a sobretaxa de 12,5% ligada a uma investigação sobre trabalho forçado, aproximadamente 4.187 produtos brasileiros poderão ser atingidos. O volume corresponde a cerca de US$ 14,9 bilhões em exportações.
O Brasil respondeu nesta segunda-feira à investigação sobre trabalho forçado. Para a indústria, a combinação das duas medidas ampliaria os impactos sobre setores relevantes da pauta exportadora brasileira e sobre empresas americanas que dependem desses insumos ou produtos finais.
Café, arroz e etanol defendem exclusão da lista
Durante a audiência, o diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil, Marcos Matos, pediu a manutenção da isenção tarifária para o café verde e para o café torrado e moído. Ele também defendeu a inclusão do café solúvel entre as exceções, sob o argumento de que o produto é usado na fabricação de bebidas prontas e ajuda a conter pressões de preço ao consumidor americano.
Matos avaliou que houve maior disposição dos representantes do USTR para compreender os efeitos da medida sobre a cadeia produtiva dos Estados Unidos.
“Há uma janela de oportunidade. É otimismo com moderação, mas há um contexto que não existia ano passado.”
A diretora executiva da Associação Brasileira da Indústria de Arroz, Andressa Silva, também descreveu o ambiente da audiência como receptivo e pediu que o arroz brasileiro seja preservado de eventual tarifa.
“A pergunta foi por que o arroz produzido nos EUA não substitui o brasileiro. Explicamos que isso ocorre por preferência e perfil dos consumidores atendidos. Falamos sobre potenciais impactos sobre pequenas e médias empresas americanas que atendem a comunidade latina e do potencial aumento de custo ao consumidor americano.”
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia, por sua vez, afirmou que a política brasileira para o etanol segue parâmetros internacionais. A entidade argumentou que a tarifa de importação de 18% aplicada pelo Brasil está em conformidade com as regras da Organização Mundial do Comércio.
Amcham diz que medida também prejudicaria empresas americanas
A Amcham Brasil concentrou sua manifestação nos efeitos que a sobretaxa poderia gerar dentro dos Estados Unidos. Segundo o presidente da entidade, Abrão Neto, a medida tende a elevar custos, reduzir competitividade e afetar empresas americanas que utilizam produtos brasileiros em suas operações.
O professor de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas, Gustavo Pessoa, que participou como representante da sociedade civil, avaliou que a maior parte das manifestações foi favorável à posição brasileira. Ele destacou, no entanto, que uma das intervenções mais duras partiu de Jenna Stanton, diretora de Política e Assuntos Públicos da associação de pecuaristas dos Estados Unidos.
Segundo Pessoa, Stanton associou produtos brasileiros a desmatamento, corrupção e trabalho ilegal, além de defender a aplicação de tarifas sobre a carne importada do Brasil.
Propriedade intelectual e grandes empresas entram no debate
No campo da propriedade intelectual, Rodrigo Ouro Preto Santos, vice-presidente da Associação Brasileira de Propriedade Intelectual, afirmou que o Brasil dispõe de legislação atualizada e cumpre as normas da Organização Mundial do Comércio. Ele citou como exemplo o plano de redução do estoque de pedidos de patentes no Instituto Nacional da Propriedade Industrial.
Segundo ele, a fila caiu de mais de 147 mil pedidos em 2019 para 527 no início deste ano.
Grandes empresas americanas também se manifestaram contra a adoção de tarifas sobre produtos brasileiros. Coca-Cola, Tesla e eBay encaminharam comentários ao USTR no dia 1º recomendando que a medida não seja aplicada. O argumento central é que a sobretaxa poderia comprometer abastecimento, produção e comércio de itens no mercado americano.

