Há poucos dias, fiquei sabendo de uma história que me deixou pensativo.
Uma mãe acabara de dar à luz seu filho.
Talvez ainda estivesse envolvida naquela emoção indescritível de trazer uma nova vida ao mundo, quando, apenas oito minutos depois do primeiro choro, precisou enfrentar a dor de uma despedida que nenhuma mãe deveria conhecer.
Oito minutos.
Fiquei algum tempo com esse número na cabeça.
Eu, que já vivi 81 anos, precisei imaginar o que significam oito minutos na existência de alguém.
Para mim, foram milhares de dias, incontáveis manhãs e noites, encontros, despedidas, alegrias, dificuldades, erros, acertos, aprendizados e oportunidades de recomeçar.
Para aquela criança, foram apenas oito minutos.
E então me veio uma pergunta que não encontrei como afastar:
Que diferença existe entre uma vida que recebe 81 anos para acontecer e outra que recebe apenas oito minutos?
Não estou falando apenas da diferença de tempo.
Estou pensando nas oportunidades que o tempo oferece.
Eu tive a oportunidade de crescer, conhecer pessoas, escolher caminhos, mudar de opinião, cometer erros e aprender com eles. Tive tempo para amar, para perder, para recomeçar.
Tive tempo para descobrir algumas coisas sobre mim mesmo e continuar descobrindo outras.
Aquela criança não teve nada disso.
Não conheceu o colo da mãe além daqueles primeiros instantes.
Não conheceu uma manhã de sol, uma chuva, uma árvore, uma brincadeira, uma escola, uma amizade.
Não teve a oportunidade de fazer uma escolha sequer.
E é justamente aí que a pergunta se torna maior do que nós.
Costumamos dizer que cada um colhe aquilo que planta.
É uma ideia que nos ajuda a compreender a responsabilidade pelos nossos atos.
Mas, diante de uma vida de apenas oito minutos, fico pensando:
que plantio pode existir quando quase não houve tempo sequer para começar a viver?
E não encontro uma resposta simples.
Quanto mais procuro compreender, mais perguntas aparecem.
É como se essa pequena medida de tempo, apenas oito minutos, abrisse diante de mim um labirinto de perguntas, no qual cada caminho conduz a outro e nenhum parece capaz de nos levar a uma resposta definitiva.
Talvez porque existam perguntas para as quais a nossa compreensão ainda não alcança uma resposta.
O relógio, porém, não se detém diante dessas perguntas.
Ele continua trabalhando em silêncio.
Para alguns, registra décadas.
Para outros, registra apenas horas, dias ou minutos.
E nós, que recebemos o privilégio de acumular anos, talvez devêssemos olhar para o tempo de maneira diferente.
Aos 81 anos, percebo que cada ano vivido não é apenas um número acrescentado à idade.
É uma oportunidade que me foi concedida.
Mais um dia para corrigir alguma coisa.
Mais uma manhã para agradecer.
Mais uma ocasião para dizer “eu te amo”, pedir desculpas, estender a mão ou simplesmente permanecer ao lado de alguém.
Aquela mãe recebeu apenas oito minutos com seu filho.
Eu recebi 81 anos de vida.
Essa diferença é tão grande que me deixa pequeno diante do mistério da existência.
Não sei explicar por que a vida oferece tanto tempo a uns e tão pouco a outros.
Não sei onde começa e onde termina a nossa compreensão sobre a justiça daquilo que acontece.
Talvez seja esse o labirinto em que todos nós, de alguma maneira, caminhamos: queremos compreender os caminhos da vida, mas nem sempre conseguimos enxergar onde eles começam, onde terminam ou por que alguns são tão longos enquanto outros duram apenas alguns minutos.
Mas talvez eu possa aprender alguma coisa com essa pergunta.
Se oito minutos foram o tempo daquela criança, o que fiz com os 81 anos que a vida me concedeu?
E o que farei com o tempo que ainda me resta?
Essa, talvez, seja uma pergunta que não precise de resposta em palavras.
Precisa de resposta na maneira como continuo vivendo.
Porque, enquanto ainda houver tempo, ainda haverá caminhos a percorrer.





