Às vezes, no meio do preparo do café ou de alguma sobremesa, alguém descobria que o açúcar havia acabado.
Não existiam supermercados abertos a qualquer hora, e o menino recebia uma pequena missão: correr até a venda mais próxima.
Às vezes, no meio do preparo do café ou de alguma sobremesa, alguém descobria que o açúcar havia acabado.
Não existiam supermercados abertos a qualquer hora, e o menino recebia uma pequena missão: correr até a venda mais próxima.
Levava algumas moedas apertadas na mão e voltava depressa com o embrulho.
Eram pequenas tarefas domésticas que faziam as crianças se sentirem importantes e participantes da vida da família.
Outras vezes recorria-se ao vizinho de maior intimidade.
Um pouco de açúcar, café, sal ou qualquer outra coisa era emprestado sem cerimônia e devolvido depois.
Até hoje, no prédio onde moro, esse costume da minha infância permanece vivo.
Quando falta alguma coisa, principalmente na cozinha, procura-se um vizinho.
E não eram apenas alimentos.
Numa emergência, emprestavam-se roupas objetos e até remédios.
Na antiga Cuiabá, essas pequenas gentilezas faziam parte da vida entre vizinhos.
Talvez por isso as crianças também aprendessem cedo a ajudar.
Eu cuidava dos meus irmãos menores e só deixei de fazê-lo quando viajei para o Rio de Janeiro para estudar Medicina.
Ajudava no preparo das mamadeiras, esquentava a água para o banho na bacia, escolhia a roupa e os fazia dormir, balançando a rede para que não chorassem.
Quando parti, levei comigo a saudade e a agradável sensação de que fazia falta naquela casa.
A vizinhança comentava que meus irmãos menores sentiriam minha ausência.
Minha mãe, certamente, sentiria ainda mais.
Morei onze anos no Rio, com poucas e rápidas visitas a Cuiabá.
Quando retornei à minha cidade para exercer a Medicina, já estava casado e fui morar em outra casa.
Mas aquele aprendizado nunca me abandonou. Hoje percebo que buscar um pouco de açúcar na venda, embalar um irmão na rede ou ajudar minha mãe eram pequenas tarefas apenas na aparência.
Foi assim, nas coisas mais simples, que aprendi a alegria de ser útil a quem amamos.

Nasceu em Cuiabá, no dia 06-07-1935, na rua de Baixo.
É Médico e professor universitário aposentado.
Reitor fundador da UFMT(1971-1982).
Seis vezes Secretário do Estado (1968-2003).
Fundador e primeiro Diretor do Curso de Medicina da UNIC
Fundador e primeiro Presidente da Academia de Medicina de Mato Grosso
Membro da Academia Brasileira de Escritores Médicos
Professor Emérito da UFMT
Estudou medicina na antiga Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil.




