Senador integrou equipe jurídica que tentou impedir julgamento do policial pelo Tribunal do Júri; crime ocorreu em 2021, em Niterói, e voltou ao centro do debate presidencial após questionamento de Lula. Acusado permanece em liberdade e ainda não foi julgado.
A morte de Ana Clara Gomes Machado, atingida por um tiro de fuzil aos 5 anos enquanto brincava nas proximidades de casa, voltou ao centro da disputa presidencial de 2026. O caso, ocorrido em fevereiro de 2021, em Niterói, no Rio de Janeiro, ganhou nova repercussão após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) questionar o senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre sua participação na defesa do policial militar acusado de provocar a morte da criança.
Documentos judiciais revelam que Flávio integrou a equipe de advogados do policial Bruno Dias Delaroli, denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) por homicídio qualificado. Em 2024, o nome do parlamentar apareceu em um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), no qual a defesa buscava afastar a decisão de submeter o militar a julgamento pelo Tribunal do Júri.
A tentativa não prosperou. Por três votos a dois, o STJ manteve a determinação de levar o acusado a júri popular. Apesar disso, mais de cinco anos após a morte de Ana Clara, o policial continua respondendo ao processo em liberdade, sem condenação criminal. A previsão divulgada é de que o julgamento ocorra no início de 2027.
Menina brincava com o irmão quando foi atingida por disparo
Ana Clara morreu em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. A criança estava perto de casa, acompanhada do irmão de apenas 2 anos, quando foi atingida por um projétil de fuzil durante uma operação da Polícia Militar.
Socorrida após o disparo, ela foi levada ao Hospital Estadual Azevedo Lima, mas não resistiu à gravidade dos ferimentos.
A investigação resultou na denúncia do policial Bruno Dias Delaroli por homicídio qualificado. Segundo o Ministério Público, o militar efetuou disparos em direção a uma área residencial, assumindo o risco de atingir pessoas que estavam no local.
A acusação sustenta que não havia confronto armado no momento dos tiros. Conforme a versão apresentada pela Promotoria, os disparos continuaram mesmo depois de moradores alertarem os agentes sobre a presença de pessoas na região.
O policial contesta a acusação. Sua defesa argumenta que os tiros ocorreram durante um confronto com criminosos e nega que ele tenha provocado intencionalmente a morte da menina.
Flávio Bolsonaro participou de recurso contra decisão que levou policial ao júri
A ligação do senador com o processo tornou-se documentada em 2024, quando seu nome passou a constar entre os representantes jurídicos de Bruno Dias Delaroli.
O caminho para o julgamento havia sido definido em novembro de 2021, quando a Justiça determinou que o acusado fosse submetido ao Tribunal do Júri. Em março de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro manteve a decisão.
A defesa, entretanto, recorreu às instâncias superiores. Em um acórdão do STJ de abril de 2024, Flávio Bolsonaro aparece como o primeiro nome de uma relação de cinco advogados vinculados ao caso, conforme documentação judicial examinada pela Folha de S.Paulo.
Os defensores questionaram a consistência dos elementos apresentados pela acusação, argumentando que não havia provas suficientes para sustentar a atribuição de intenção homicida ao militar. Também levantaram dúvidas sobre a preservação do local do crime, aspecto considerado relevante para a produção das provas.
O recurso foi rejeitado por três votos a dois, preservando o entendimento de que caberia ao Tribunal do Júri examinar a responsabilidade criminal do policial.
Posteriormente, foram apresentados recursos ao Supremo Tribunal Federal (STF), igualmente sem êxito na tentativa de modificar o encaminhamento do processo.
Mais de cinco anos depois, acusado permanece em liberdade
Bruno Dias Delaroli chegou a ser preso em 2021, mas obteve a revogação da prisão preventiva em novembro daquele ano. Desde então, responde à acusação fora do sistema prisional, sujeito às medidas cautelares estabelecidas pela Justiça.
Em agosto de 2025, tornou-se definitiva a determinação de submetê-lo ao Tribunal do Júri, após o esgotamento dos recursos contra essa decisão.
A conclusão dessa etapa processual, contudo, não significa condenação. O acusado ainda deverá ser julgado, ocasião em que os jurados analisarão as provas e decidirão sobre sua responsabilidade pela morte da criança.
Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, a sessão de julgamento está prevista para o início de 2027, quando terão transcorrido aproximadamente seis anos desde o episódio.
Até a realização do júri, permanece assegurada ao policial a presunção de inocência, princípio constitucional aplicável a todos os acusados que ainda não receberam condenação criminal definitiva.
Lula confrontou Flávio durante debate presidencial
A participação de Flávio Bolsonaro na defesa do militar foi mencionada durante o primeiro debate do segundo turno da eleição presidencial, promovido pela TV Bandeirantes no domingo (18).
Em meio a uma discussão sobre segurança pública e criminalidade, Lula cobrou explicações do adversário sobre sua atuação como advogado no processo relacionado à morte da menina.
“Esse assassino que você não deixou ser preso, que matou uma criança de 5 anos, votou em você?”, questionou o presidente.
Flávio reagiu à declaração e afirmou que o exercício profissional da advocacia não poderia ser tratado como demonstração de concordância com os crimes atribuídos a uma pessoa defendida judicialmente.
“Você não pode criminalizar a advocacia, Lula. Nem teve julgamento e você já condenou o cara”, afirmou o senador.
A resposta buscou estabelecer uma distinção entre a atuação de um advogado e a responsabilidade pelos atos atribuídos a seu cliente. No sistema jurídico brasileiro, o direito à defesa é uma garantia constitucional, independentemente da gravidade da acusação.
A referência ao caso provocou repercussão nas redes sociais e ampliou a visibilidade da morte de Ana Clara durante a reta final da campanha presidencial.
Homenagem a policial apontado como miliciano também voltou à discussão
Outro episódio envolvendo Flávio Bolsonaro e integrantes da Polícia Militar do Rio de Janeiro voltou a ser lembrado durante a campanha: a homenagem concedida a Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope).
Quando exercia mandato de deputado estadual, Flávio propôs a concessão da Medalha Tiradentes, uma das principais honrarias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ao então oficial.
Anos depois, Adriano passou a ser apontado pelas autoridades como liderança da organização criminosa conhecida como Escritório do Crime, associada à atuação de milícias no estado.
Ele morreu em fevereiro de 2020, durante uma operação policial realizada na Bahia.
A homenagem não possui relação direta com o processo sobre a morte de Ana Clara. Adriano da Nóbrega não é o policial denunciado pelo disparo que matou a criança.
Em entrevista ao Jornal Nacional, em agosto de 2026, Flávio voltou a justificar a condecoração, sustentando que, à época, Adriano era considerado um profissional exemplar dentro da corporação.
Julgamento deverá definir responsabilidade pela morte da criança
A repercussão política do caso não altera a situação processual do militar. A decisão judicial que determinou sua submissão ao Tribunal do Júri permanece válida, e a definição sobre eventual condenação dependerá da análise das provas durante o julgamento.
O Ministério Público sustenta que o policial assumiu o risco de provocar mortes ao disparar em direção a uma região habitada. A defesa contesta essa interpretação e afirma que a ação ocorreu em circunstâncias de confronto armado.
A participação de Flávio Bolsonaro na equipe jurídica também não representa, por si só, qualquer responsabilização do senador pela morte da menina.
Enquanto o caso ocupa espaço no embate eleitoral, a questão central permanece sem desfecho na Justiça: mais de cinco anos depois de Ana Clara ser atingida por um tiro de fuzil enquanto brincava perto de casa, ainda não houve uma decisão do Tribunal do Júri sobre a responsabilidade criminal do policial acusado.




