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Tecnologia desumana

Por Dr.GAbriel Novis Neves *

Trabalhar dependendo de tecnologia não é tarefa das mais fáceis.

A pessoa tem que dominar o conhecimento tecnológico básico. Caso não, fracassa em suas pretensões.

Desde cedo, estou tentando utilizar o e-mail de meu notebook.

Clico o título da crônica, ela não abre. Na telinha, aparece uma circunferência fina que roda sem parar.

Roda, roda, roda e desliga. Na parte superior do e-mail, em letras vermelhas, o aviso: ‘problemas com a conexão’. O aparelho se desliga, e tudo volta à estaca zero.

Primeiro procurei socorrer-me de meu fisioterapeuta. Ele passeia, soberano, por este campo. Prometeu-me que, no dia do meu tratamento — faltam só ‘cinco’ —, poderia me ajudar.

‘A máquina é inteligente e, às vezes, trava para segurança do usuário. Nesses casos, é preciso reconectá-la.’ Aí está sua orientação.

Esse procedimento é bem comum em meio aos que sabem do riscado. Mas não é esse o meu caso.

Liguei para meu técnico em informática. Por estar em atendimento, só poderá me socorrer daqui a uma hora.

Chove chuva fina lá fora.

Quando chove com ventos, o sinal da tevê fica magoado. E quem sofre é o usuário.

De repente, o técnico me chama pelo WhatsApp. A ele, repasso o problema.

Pede-me que abra, na tela do computador, o aplicativo Team Viewer e lhe forneça o ID e o número da senha.

Reinicia seu trabalho à distância. Do meu escritório, passo a acompanhá-lo, embora nada entenda…

Recomenda que eu desligue o ‘modem’ (leia-se môudem) por cerca de dez minutos e depois religue.

Pronto, estava concluído! Seu atendimento foi um sucesso!

Como é que pode um jovem dominar, com mestria, nossa sofisticada tecnologia?

Cheguei ao fim da tarde, sem pendência nenhuma.

No dia seguinte, em um procedimento no hospital, causou-me estranheza saber que ali ninguém possuía iPhone.

Procurei ajuda para receber o sinal do wi-fi. Não havia quem soubesse manejar o iPhone.

Casa com o que penso: até mesmo em tecnologia, a dificuldade para sermos solidários impera.

A meu modo de ver, mais um indício de que a tecnologia não é humana.

* Dr. Gabriel Novis Neves,
Nasceu em Cuiabá, no dia 06-07-1935, na rua de Baixo.
É Médico e professor universitário aposentado.
Reitor fundador da UFMT(1971-1982).
Seis vezes Secretário do Estado (1968-2003).
Fundador e primeiro Diretor do Curso de Medicina da UNIC
Fundador e primeiro Presidente da Academia de Medicina de Mato Grosso
Membro da Academia Brasileira de Escritores Médicos
Professor Emérito da UFMT
Estudou medicina na antiga Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil.