Ameaça chinesa ganha tração com debate sobre escala laboral
No Anfavea Visions 2026 — realizado em São Paulo na última segunda-feira (9/06/2026) —, o presidente da Stellantis na América do Sul, Herlander Zola, lançou um alerta contundente sobre os riscos da eventual extinção da escala de trabalho 6×1 no Brasil. Segundo o executivo, que comanda marcas como Fiat, Jeep e Citroën no país, a proposta em discussão no Congresso Nacional representa um ponto de inflexão negativo para a competitividade do setor automotivo brasileiro, especialmente quando comparado ao ritmo produtivo chinês.
Zola comparou diretamente os modelos: enquanto as fábricas chinesas operam com cargas horárias semanais superiores às projetadas no Brasil sob o novo regime, a indústria local já enfrenta desafios com a expansão agressiva de montadoras asiáticas no mercado nacional. “As horas trabalhadas na China durante uma semana são muito maiores do que aquelas que teremos no Brasil com o modelo que está sendo discutido”, afirmou o executivo, durante painel que reuniu líderes do setor, governo e fornecedores.
Parcerias globais e o paradoxo da dependência chinesa
O presidente da Stellantis também abordou o paradoxo das alianças internacionais, destacando que muitos players nacionais mantêm laços estratégicos com fabricantes chineses — o que, paradoxalmente, pode acirrar a concorrência interna em detrimento das marcas tradicionais. “Muitos dos players nacionais têm parcerias fortes na China, que podem ser utilizadas para ampliar a presença desses competidores no Brasil”, alertou Zola, sem citar nomes específicos.
O executivo não descartou a possibilidade de a empresa rever investimentos no país caso o cenário se agrave. “A decisão de manter ou expandir operações locais depende de um ambiente que garanta previsibilidade e competitividade“, afirmou, sem detalhar possíveis ajustes na planta de São Paulo, uma das principais da Stellantis no continente.
Congresso e indústria: o que está em jogo
A proposta de fim da escala 6×1, encampada por setores sindicais e parte do Legislativo, visa reduzir a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, com compensação em folgas. No entanto, o setor automotivo — tradicionalmente dependente de turnos extensos para viabilizar produção em larga escala — joga contra a corrente global, onde países como México e China mantêm regimes mais flexíveis.
Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) indicam que o Brasil já perdeu 12% de participação no mercado de autopeças para fornecedores chineses entre 2020 e 2025, enquanto a China avançou com modelos elétricos e híbridos a preços até 30% inferiores. “O debate sobre a escala laboral não pode ignorar o cenário de guerra comercial que se desenha na indústria automobilística”, avaliou Zola, em tom cauteloso.




