Há algum tempo venho descobrindo que envelhecer não é apenas contar os anos que passaram.
É, talvez, aprender a conversar com os homens que fui.
Às vezes me pego olhando para o Wilton de 40 anos. Depois encontro o de 50, o de 60. Cada um deles tinha suas certezas, seus medos, seus sonhos e suas próprias maneiras de enxergar a vida.
Hoje olho para todos eles com uma compreensão que não poderia ter antes.
E é aí que percebo uma injustiça que fiz comigo durante muito tempo: julgar o homem que fui com os olhos do homem que sou.
Hoje sei coisas que naquela época eu não sabia.
Compreendo melhor algumas escolhas.
Enxergo erros que antes não conseguia perceber.
Há atitudes que, se pudesse voltar no tempo, faria de outra maneira.
Há palavras que gostaria de não ter dito e silêncios que talvez devesse ter quebrado.
Mas aquele homem não tinha os meus olhos de hoje.
Ele tinha apenas a consciência que conseguira construir até aquele momento.
Fazia o que podia com aquilo que sabia.
Talvez tenha errado algumas vezes.
Talvez tenha acertado mais do que imagina.
Mas foi ele quem caminhou até aqui.
Por isso, tenho tentado substituir a cobrança pela compreensão.
Não quero justificar meus erros.
Quero aprender com eles.
Acho que existe uma diferença enorme entre dizer “eu errei” e dizer “eu sou um erro”.
A primeira frase me permite seguir.
A segunda me prende ao passado.
E eu não quero mais viver preso ao que passou.
Algumas coisas não voltam.
Pessoas queridas ficaram pelo caminho.
Algumas amizades se perderam no tempo.
Há sonhos que não aconteceram e oportunidades que não voltarão.
E talvez seja justamente isso que torna a vida tão preciosa: perceber que o tempo não nos pertence.
Ele apenas passa por nós.
Quando sinto saudade, às vezes penso que não sinto falta apenas das pessoas ou dos acontecimentos.
Sinto falta também de quem eu era quando aquelas coisas aconteciam.
Sinto falta de versões de mim que desapareceram sem que eu percebesse.
Mas hoje não quero recuperar nenhum desses homens.
Quero acolhê-los.
Quero olhar para aquele Wilton mais jovem, colocar a mão em seu ombro e dizer:
“Você não sabia tudo. Eu também não sei.
Mas obrigado por ter continuado.”
Porque foi assim que cheguei até aqui.
E talvez esta seja uma das maiores descobertas que o tempo me trouxe: ainda não terminei.
Ainda posso aprender.
Ainda posso mudar de opinião.
Ainda posso pedir perdão.
Ainda posso amar com mais cuidado.
Ainda posso descobrir alguma coisa que ontem não sabia.
Ainda posso ler.
Ainda posso estudar.
Ainda posso escrever.
E talvez seja justamente aí que esteja o meu próximo caminho.
Não preciso inventar uma nova vida.
Preciso continuar dando sentido à que tenho.
Quero ler porque ainda há muito que não sei.
Quero estudar porque ainda tenho perguntas.
Quero escrever porque algumas experiências, quando transformadas em palavras, deixam de ser apenas minhas e podem tocar alguém.
Talvez este seja o meu jeito de fazer as pazes com o tempo.
Não tentando recuperar o que passou, mas usando o que vivi para compreender melhor o que ainda tenho pela frente.
Hoje, quando olho para os homens que fui, já não sinto vontade de julgá-los.
Tenho vontade de abraçá-los.
Eles não sabiam onde aquela caminhada iria dar.
Eu também não sei quanto tempo ainda tenho.
Mas sei uma coisa: enquanto houver tempo, ainda haverá possibilidade.
E, enquanto houver possibilidade, quero continuar caminhando.
Lendo.
Estudando.
Escrevendo.
Sendo, enfim, o homem que aqueles outros homens, sem saber, estavam preparando para chegar até aqui.





