DayNews
Notícias

O CAMINHEIRO É O CAMINHO (1) – Por Professor Dr. Elismar Bezerra Arruda

Missias
13 de junho de 2026 às 16:53
Compartilhar:
O CAMINHEIRO É O CAMINHO (1) – Por Professor Dr. Elismar Bezerra Arruda

Redação – Gerada por IA

Estrada é rasgo na terra com destino certo, definido por algum interesse, muitas vezes mesquinho, afigurado como necessidade de muitos; porque, poderoso, o interesse faz a estrada ser o caminho de quem precisa sobreviver – caminho assim, é só estrada, necessária. Caminho é feito de pés e sonho bom, que se abre ao corpo-e-alma para um caminhar de indagações e espantos e desvelamentos, quando o olhar vê e enxerga horizontes desabrochando em amanheceres diversos: estar a caminho é tragar distâncias num passo sem o compasso da pressa de chegada – porque vai-se conhecendo as minudências dos dias, que só o Sol e a Terra e os Ventos e Brisas e as Nuvens sabem formar: tais que, até a chuva, quando estende suas cortinas de prata transparentes no amanhecer e nas tardezinhas, deixa nesgas, frestinhas, por onde passa a claridade…

Diz-se que, nesse tempo, olhos acostumados gozam: ali veem mais belezas vicejando, formando encantos, desde os silêncios dos que aprenderam a enxergar, de tanto ouvir. Sim, o caminhante vai ouvindo o que ouvidos moucos desconhecem ouvir; soubessem, ouviriam sementinhas se abrindo em ais de parto, no brotamento dos cerrados e dos campos, dos varjões e dos pampas e das matas – daí que o olhar do caminhante vai se fazendo de outro enxergar, porque ouve e sente antes de os dizer às gentes e ao léu: que é quando aprende mais, ouvindo reverberado o que disse, remoidamente…

– O moço vem de onde? Perguntou o velho Anastácio ao homem que se sentara num tamborete, que lhe foi oferecido na varanda da casa. Tinha suor e poeira fina na face, afigurando o cansaço do caminhar; na sombra boa da casa descansava, bebendo água fresca em goles compassados, aos sorvos: o corpo inclinado pra frente, com os braços apoiados nas pernas, segurando o caneco, e, ao lado, o saco de viagem deitado ao chão. Ele levantou o olhar manso para o velho e sua senhora, reparou no rapaz e nos dois meninos que ladeavam os pais: –Na verdade, eu venho de muito andar; de jeito que não venho de lugar meu nenhum: não tenho! A esposa e os filhos olharam para o velho, esperando dele palavras que os fizessem entender o falar diferente do estranho, cujos modos, davam que parecia vir de longe, e a caminho para mais longe, sem termo; de resposta, Anastácio lhes deu o silêncio das sabedorias, deixando-os no desamparo das próprias indagações: “Se for doido, pelo jeito, é doido manso…”, “Esse fii de Deus, vem é de muito se doer na vida…”, diziam-se…

Nenhuma palavra se disse. No Sertão não se gastava palavra atoa, pra enchimento de conversa: “quem fala demais, dá bom dia a cavalo”; sim, tinha-se que é na quietude das coisas, que os mistérios dormem: ali, no ver devagar e pensar sem pressa, e por um ou outro perguntar, é que se cultiva o saber. A tarde de ventinho fresco caía devagar, como a se espreguiçar no pouco tempo de sol restante, pra se dar à noite friorenta de junho. Então, o velho desanuviou o olhar, desfranziu o semblante e, à vista do que viu e sentiu do caminhante, ordenou ao filho mais velho: – Romão ata uma rede na casa do pilão: o moço carece de descansar! O caminhante ouviu a ordem e esfregou o rosto com as mãos em concha, depois, juntando-as ao peito, à moda dos suplicantes, disse em prece, agradecendo: –Que esta casa e suas vidas sejam sempre abençoadas…; ao que o velho respondeu: –Amém!

A pequena fazenda do velho Anastácio não tinha indicação de nome: divisava-se do resto do mundo pela cerca de pau-a-pique, que o caminho de chão ladeava por centenas de braças, depois, deixava-a no seu estar sossegado, e seguia adiante para o sem fim dos caminhos. Era lugar de chuvas e estiagem reguladas às necessidades da terra, para a criação e as plantas e aos bichos todos, num preparo ao natural, conforme os prazos para o trabalho se fazer comida e conforto, no riso-alegria de folhas e frutos e sombra e cores e sons, necessários – inclusive cantigas, nos festejos do santo devotado: São José. Ali ele estava desde menino, quando chegou com os pais e outros parentes, que se assentaram em sítios mais adentrados. Ainda rapazote, casou com Adelina, aparentada, filha de um tio que chegou depois e se apossou de um sítio a seis léguas dali; aí, por gosto dos pais, trouxe-a pra morar com eles, suprindo a falta da única irmã que, casando-se quase no mesmo tempo, foi morar com o marido noutro sítio. Ali se fez gente, moldado pelo esforço nos afazeres ensinados pelos pais e os mais, nascidos das necessidades surgidas quando se fez marido e pai: mais não precisou, senão, para polir o próprio ser, exigido mais, desde que enterrou os pais…

Deu ao lugar suas feições e gosto, de jeito a não ter pensamentos para outros destinos e modos de ser e, assim, com a mulher e os filhos fizeram-se à semelhança do lugar: era parte das paisagens, como se ali tivessem brotado com as árvores mais antigas. E foi que, sem a necessidade dos avarentos e sem ensinamentos de escola pra desejos diversos, deram-se por horizonte o que ergueram por si, com gosto, conformados no próprio viver, porque é na dificuldade do viver, que a gente se enxerga, em dor e riso, e atina ou desatina, queda-se satisfeito ou sai à procura do quem nem sabe direito ser…

No quase crepúsculo, com o sol derramando sua vermelhidão dourada no descampado de varjões naturais, quando o gado já caminhava para o malhador, juntando-se em aconchegos para ruminar os silêncios da noite – Dona Adelina serviu a janta, esmerando a seu modo na arrumação da mesa, estendeu uma toalha de bordas enfeitadas com renda de bilro, distribuiu seis pratos azulados de ágata, uma colher ao lado de cada um; depois, trouxe uma panela grande com fundo encarvoado cheia de carnes e legumes cozidos, e pôs no meio da mesa; outra com arroz branco, mais uma tigela de alumínio com feijão gordo e, por fim, uma cuinha de cabaça com farinha de puba: –Pode vim cumê! Anastácio sentou-se à mesa e, antes de se servir, mandou um dos meninos ir chamar o caminhante pra se juntar a eles; o menino foi: –O homi tá dormindo, pai… Com todos à mesa, o velho começou a se servir, dizendo: –Quando o corpo tá com sustança, mas cansado, a comida que é mais preciso, é o descanso mesmo: dexa ele drumir!

Na rede larga, o caminhante dormiu sono solto, profundo; acordou quando os galos iniciaram suas tessituras do dia, na alta madrugada. Sem se levantar, auscultou o lugar, sentindo os cheiros e sons, tateando com as mãos e o corpo todo, o derredor: lembrou-se de onde estava, divisou no lusco-fusco um pilão e traias do trabalho diário dependuradas em vigas e caibros, outras dispostas num velho banco de madeira, no que foram cadeiras, além de umas ferramentas no chão. Aconchegou-se mais na rede, a olhar o teto de palha, mal vendo o trançado dos talos das palhas nas ripas de taboca; quis se levantar e retomar o caminho antes que Anastácio e os seus se levantassem, mas, um desânimo incomum o prendeu à rede: perdeu-se em pensamentos sem querer pensar, em se esvaziar de si e ser leve como as sementes da paineira que viu voando, levadas pelo vento manso, planando – aí, adormeceu novamente…

–Seu minino! Seu minino! Anastácio chamava o caminhante, quase gritando e sacudindo os punhos da rede, tentando acorda-lo. Como se sonhasse, o caminhante via o esforço do velho tentando acordá-lo, a sacudi-lo, num quase desespero; era de jeito que, na situação tribulosa, via-se dividido em dois: no que permanecia deitado, sem ânimo, e outro: este que tudo via, e nada sentia, num estado de leveza tal, que planava sem o peso sequer da própria carnalidade. Este era o que existia, vendo-se pelo que sempre fora, mas ali, sem mais nada poder ser; era como um em si, sendo sem necessidade de nada do que sempre fora necessário para existir. Assim, na atribulação, com fôlegos curtos e demorados entre si, rareando mais e mais, tentava perguntar ao velho a razão do seu desespero, de querer acordá-lo – se só estava a descansar. E tentava dizer-lhes isto e mais, mas, nem as palavras, nem os gestos seus, tocavam-lhes qualquer dos sentidos…

À vista daquilo, o caminhante se tateou e, também ele, não se sentia a si mesmo: era translúcido, uma imagem a afigurar um corpo etéreo, sem a carnalidade pulsante, com forma e ossos e respirar; curvou-se ao chão, para trazer às costas o saco de viagem que estava ao pé da rede, mas, as mãos atravessavam a materialidade do tecido sem nada aluir: nada ele fazia movimentar, nada tangia. Aí, viu Anastácio e os seus, depois daquela afobação de esforços sem frutos sobre seu corpo, quedarem-se incrédulos ao redor da rede, silentes, a olhá-lo afundado num aconchego bom, de sono profundo, sem um movimentozinho que fosse – então, o velho fez o Pelo Sinal, a mulher e os filhos acompanharam-no no gesto e o ouviram dar a ordem ao mais velho: –Arreie cavalo e vá dizer do aconticido a Mané Preto, João da Orora, Cumpade Azeredo: dali volte, mas diga a ele, Azeredo, pra mandar avisar os outros de mais longe…

O caminhante se vendo inerte na rede, sentiu entristecimento se esparramando nos olhares e gestos, e a atmosfera da casa leve e terna se carregar pesadamente; quis se ir dali, queria retomar o caminho, ir-se para a busca a que estava dado inteiro: mas, quede a bagagem sua, o sentido que o fizera caminhar, a finalidade além, o horizonte imaginado? Aí, olhou longamente o sol que já se elevara sobre as árvores e entrava vivo e quente na casa, a aquecer os bichos no terreiro; viu sem sentir, que a luz o atravessava sem óbices nem deixar sinais…

O sol já pendia pro Oeste, um tropel de cascos, de gente apressada fustigando animais montados, ouviu-se chegando: dava-se que o que fora dar o recado estava de volta, acompanhado de mais gente…

  (Continua, depois…)

* Professor Dr. Elismar Bezerra Arruda. Doutor em Educação pela Universidade Federal Fluminense (2017). Mestre em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (2011). Possui Graduação em Pedagogia pela Universidade Federal de Mato Grosso (1986). Atualmente é efetivo – Secretaria de Estado de Educação e efetivo – Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá.