A busca por segurança e a preocupação com possíveis emergências estão entre os principais motivos que levam pais a acompanhar a rotina de filhos já na vida adulta, revela estudo. Foto: South_agency/E+/Getty Images
Pesquisa da Universidade de Michigan aponta que mais de 50% dos responsáveis rastreiam jovens na faixa de 18 a 25 anos
A expansão da vigilância tecnológica para além da maioridade
No último dia 16 de junho de 2026, dados do Hospital Infantil CS Mott da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, lançaram luz sobre uma prática cada vez mais comum entre famílias brasileiras e internacionais: o monitoramento digital de filhos adultos. Segundo a pesquisa, metade dos pais (50%) com filhos entre 18 e 25 anos utilizam tecnologia para rastrear localização, mensagens ou hábitos digitais, uma prática historicamente associada à supervisão de menores, mas que agora se estende aos jovens que já atingiram a maioridade.
Quando a vigilância vira armadilha: o paradoxo da ‘segurança’
A motivação declarada pelos responsáveis é, em tese, nobre: ‘ter tranquilidade’ ou ‘estar preparado para emergências’. No entanto, os números revelam um efeito colateral preocupante. Quase um quarto dos pais que adotam essa prática (24%) confessaram que, ao invés de reduzir suas apreensões, o monitoramento alimenta a ansiedade. A psicóloga e colaboradora da CNN, Kara Alaimo, professora de comunicação na Universidade Hofstra, explica o fenômeno: ‘Quando você só tem um dado limitado, seu cérebro tende a preencher as lacunas com os piores cenários’.
Tecnologia como extensão da relação parental: limites tênues
O estudo, conduzido com responsáveis por jovens de 18 a 25 anos, aponta que o monitoramento muitas vezes é justificado pela transição para a vida adulta — uma fase onde os filhos passam a viver sozinhos, estudar ou trabalhar longe de casa. Contudo, a linha entre ‘cuidado responsável’ e ‘invasão de privacidade’ se torna cada vez mais difusa. Dispositivos como ‘Find My Friends’ ou aplicativos de rastreamento de uso de aparelhos ganham popularidade mesmo entre casais adultos, segundo dados não publicados da pesquisa.
Consequências invisíveis: o impacto no comportamento dos filhos
Embora não seja o foco central do estudo, especialistas ouvidos pela ClickNews destacam que a vigilância constante pode minar a autonomia e a confiança dos jovens adultos. ‘Filhos nessa faixa etária estão construindo sua identidade e responsabilidade. O monitoramento excessivo pode transmitir uma mensagem de desconfiança, afetando a relação’, avalia a psicóloga Marília Lima, especialista em saúde mental familiar. A pesquisa não abordou como os filhos percebem essa prática, mas a ausência de diálogo sobre o tema — citada por 30% dos pais entrevistados — sugere um ‘silêncio consentido’ que pode agravar o problema.
Alternativas ao monitoramento: confiança como pilar
Diante do risco de a vigilância digital se tornar um ciclo de ansiedade mútua, especialistas recomendam abordagens mais equilibradas. ‘A tecnologia é uma ferramenta, não um substituto para a comunicação’, afirma Alaimo. A pesquisa sugere que pais que estabelecem acordos claros sobre limites (como horários de contato ou compartilhamento voluntário de localização) relatam níveis menores de estresse. Além disso, o uso de dispositivos de segurança — como botões de pânico ou compartilhamento de localização em casos específicos — é apontado como uma solução intermediária.
O debate, porém, está longe de ser encerrado. Enquanto 50% dos pais veem no monitoramento uma forma de proteção, outros 25% já questionam se não estão ‘criando filhos adultos que não sabem viver sem supervisão’ — um paradoxo que a sociedade do século XXI terá que enfrentar.

