Documentário desenvolvido pelo Google DeepMind recria, com apoio de inteligência artificial e pesquisa histórica minuciosa, o lance marcado por Pelé na rua Javari em 1959, eternizado por testemunhos, mas jamais registrado em vídeo.
Um lance mítico finalmente ganha forma visual
Considerado por muitos o gol mais espetacular da carreira de Pelé, o lance anotado em 1959, no estádio Conde Rodolfo Crespi, a tradicional rua Javari, em São Paulo, atravessou décadas restrito às lembranças de quem o presenciou e aos relatos que ajudaram a consolidar sua dimensão histórica. Sem registro audiovisual da partida entre Santos e Juventus, disputada antes da popularização do videotape no futebol, a jogada permaneceu no imaginário esportivo como uma obra-prima invisível.
Essa lacuna agora recebe uma representação inédita. O gol foi recriado em vídeo por meio de inteligência artificial no documentário The Most Beautiful Goal Never Seen (“O Gol Mais Bonito Que Nunca Foi Visto”), lançado mundialmente nesta terça-feira (14).
DeepMind e marca Pelé uniram tecnologia e memória esportiva
A produção é fruto de uma parceria entre o Google DeepMind, divisão de pesquisa em inteligência artificial da companhia, e a marca Pelé, administrada pela NR Sports. Para desenvolver a reconstrução visual, foram utilizados os modelos Gemini Omni, Veo 3 e Nano Banana.
O trabalho nasceu dentro da equipe dedicada a investigar aplicações de IA para os setores de mídia e entretenimento no Google DeepMind. Trata-se do mesmo núcleo que, no ano anterior, participou da criação de Ancestra, filme realizado com a produtora Primordial Soup, do cineasta Darren Aronofsky.
Segundo Márcia Mayer, chefe de produção do Google DeepMind e ex-integrante da Pixar, o nível de desenvolvimento das ferramentas foi determinante para tornar o projeto viável. “Dois anos atrás, esse filme do Pelé não seria possível, porque o modelo [de IA de vídeo] não era bom o suficiente ainda. Não seria possível [recriar] o Pelé e dizermos: ‘Ah, esse é o Pelé mesmo’. Mas no vídeo agora, até a filha dele reconhece o pai”, afirma.
Reconstituição exigiu pesquisa histórica detalhada
Embora a tecnologia esteja no centro do projeto, os responsáveis ressaltam que a recriação só foi possível graças a um trabalho extensivo de pesquisa e reconstrução histórica. O processo não se apoiou apenas nos depoimentos de testemunhas e na única fotografia conhecida do lance, mas também em imagens de época, arquivos do estádio e referências visuais sobre o público, os uniformes e os objetos usados naquele período.
A proposta, segundo os realizadores, era atingir o maior grau possível de fidelidade histórica. Isso incluiu detalhes como o modelo das chuteiras utilizadas pelos atletas e a aparência original da rua Javari.
“Tudo tem que ser baseado em alguma imagem que você resgatou”, explica Gabe Ferreira, líder de criação e design do Google. “O estádio, a chuteira, a forma como as pessoas se vestiam… Queríamos que tudo isso fosse realmente tratado como um material histórico.”
A IA não substituiu o trabalho humano
Ao contrário da percepção de que bastaria um comando de texto para gerar a cena, o documentário foi construído a partir de uma combinação entre técnicas tradicionais de produção audiovisual e recursos de inteligência artificial. A equipe elaborou roteiro, levantou referências, montou set de filmagem e encenou a jogada com atores.
Seis câmeras foram usadas para registrar os movimentos corporais da reconstituição, fornecendo uma base visual que posteriormente foi refinada e transformada com apoio da IA. O estádio atual também precisou ser alterado digitalmente para se aproximar de sua configuração de 1959.
“Se você compara a Javari que gravamos com a que aparece no filme, é diferente. Tivemos que alterar certos aspectos do estádio, porque ele foi reformado várias vezes desde 1959. Tivemos que usar essa base gravada e alterá-la com base nas fotos do acervo histórico”, diz Gabe Ferreira.
Bola, cenário e gestos foram recriados para buscar autenticidade
O compromisso com a verossimilhança chegou também à bola usada no lance original. Mais pesada do que a utilizada no futebol contemporâneo, ela foi reproduzida para influenciar corretamente a movimentação e a dinâmica da cena. A intenção era evitar uma reconstituição genérica e aproximar o resultado do contexto real da época.
Márcia Mayer afirma que a inteligência artificial foi empregada como complemento a um trabalho já cuidadosamente estruturado. “As pessoas acham que você diz para o modelo ‘faça esse gol’ e o filme sai pronto. Mas não é. Tivemos que colocar todo cuidado no filme base, para ter autenticidade, fazer o que já era possível. E a IA entra para fazer o que antes era impossível”, afirma.
O gol que virou lenda
Pelé tinha apenas 18 anos quando protagonizou a jogada. Naquele duelo contra o Juventus, já havia marcado aos 24 minutos do primeiro tempo e voltou a balançar as redes aos sete minutos da etapa final. Foi nesse segundo gol que nasceu o episódio que atravessaria gerações como uma das maiores expressões de genialidade do futebol.
De acordo com os relatos, diante de uma torcida juventina estimada em cerca de 10 mil pessoas, que passou a vaiá-lo a cada toque na bola, Pelé recebeu na entrada da área após um contra-ataque iniciado pelo Santos. O lançamento veio de Dorval, pela ponta-direita.
Sem deixar a bola cair, o atacante aplicou uma meia-lua sobre o primeiro marcador. Depois, já com a bola quicando pela última vez, encobriu dois defensores em sequência, ainda sem permitir que a pelota tocasse o chão. Na continuidade da jogada, também encobriu o goleiro Mão de Onça, que caiu no gramado, antes de concluir de cabeça, já próximo à pequena área.
Na sequência, Pelé celebrou com um gesto que se tornaria uma de suas marcas: o soco no ar. O impacto do lance foi tão grande que até jogadores adversários o aplaudiram e foram cumprimentá-lo antes da retomada da partida.
Não foi a primeira recriação, mas é a mais ambiciosa
Essa não é a primeira vez que o histórico gol recebe uma tentativa de reconstrução. Em 2004, o documentário Pelé Eterno já havia apresentado uma versão feita com computação gráfica. À época, no entanto, as limitações tecnológicas impediam um nível mais sofisticado de realismo.
Agora, com o avanço das ferramentas de inteligência artificial generativa, o projeto amplia as possibilidades de reimaginar episódios sem registro visual, aproximando memória, arquivo e tecnologia para devolver imagem a um dos lances mais célebres da história do futebol.
Depoimentos ajudam a sustentar a narrativa
Além da reconstituição da jogada, o documentário reúne entrevistas que ajudam a contextualizar o momento histórico e a importância do lance. Entre os depoimentos está o de Pepe, único jogador ainda vivo entre os que integravam o time de Pelé naquela partida.
Com isso, a produção busca ir além do impacto visual e se apresenta também como um exercício de preservação da memória esportiva, dando nova forma a um capítulo que, por décadas, sobreviveu apenas na tradição oral e na reverência ao talento do Rei do Futebol.
( Com Maurício Meireles/Folha de S.Paulo )


