O ‘Olé, olé, olé’ como manifesto cultural, não performance
O relato do processo criativo do hino ‘Olé, olé, olé’ — tradicionalmente associado às torcidas da Copa do Mundo — lança luz sobre um fenômeno recorrente na história das canções esportivas: a autenticidade sobrepõe-se à perfeição técnica. Segundo depoimentos de membros da equipe de gravação, a faixa foi produzida após uma sessão de descontração, onde os jogadores, mesmo sem habilidades vocais profissionais, improvisaram os versos em um momento de descontração. A decisão de gravar imediatamente após a ‘folga’ com bebidas — conforme sugerido pelo produtor — transformou o que poderia ser um fracasso em um símbolo global.
O que define um hino da Copa do Mundo: emoção ou técnica?
Análises musicais e antropológicas indicam que os hinos mais memoráveis das Copas — como ‘Waka Waka’ (2010), ‘We Are One (Ole Ola)’ (2014) ou ‘Live It Up’ (2018) — compartilham traços comuns: ritmo contagiante, letras simples que ecoam a união nacional e, acima de tudo, uma conexão emocional imediata com o público. No entanto, a história do ‘Olé, olé, olé’ desafia o paradigma da produção meticulosa: sua força reside na espontaneidade, na voz de quem não se importa em errar, mas sim em celebrar. Essa dualidade sugere que, no futebol, a música serve menos como arte e mais como extensão da identidade coletiva.
Consequências culturais: do estúdio ao estádio
A disseminação global do ‘Olé, olé, olé’ não decorreu de campanhas de marketing, mas de sua apropriação pelas torcidas. Em 2026, três décadas após sua primeira aparição em uma transmissão esportiva, o canto continua a ser entoado em estádios do Catar ao Maracanã, agora adaptado por fãs para protestos, comemorações e até críticas sociais. Essa reinvenção constante — que transforma um jingle comercial em ferramenta política — demonstra como os hinos da Copa transcendem seu propósito original, tornando-se patrimônio imaterial da humanidade.
Para a edição de 2030, prevê-se que a FIFA priorize canções produzidas por artistas locais do país-sede, seguindo a tendência iniciada em 2022 com o Qatar. No entanto, o caso do ‘Olé, olé, olé’ serve de alerta: a busca pela ‘música perfeita’ pode sufocar a magia da imperfeição — aquela que, como na própria Copa, transforma derrotas em vitórias e amadores em lendas.

