Publicação que incentivava votos no candidato do PL foi retirada após críticas nas redes sociais. Grupo de Uganda afirma que desconhecia a repercussão política da iniciativa e pretendia utilizar os recursos na construção de uma casa para crianças. Especialistas apontam possíveis irregularidades eleitorais no esquema de remuneração digital.
De acordo com a BBC NEWS BRASIL, a divulgação de um vídeo eleitoral envolvendo crianças de Uganda e uma criptomoeda associada à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) desencadeou uma controvérsia que ultrapassou as redes sociais e chegou ao debate jurídico sobre os limites do financiamento e da propaganda política no Brasil. Após a repercussão negativa, o grupo de dança Hypers Kids Africa retirou a publicação do Instagram, na noite de quinta-feira (8), e anunciou que pretende devolver os ativos digitais recebidos pela iniciativa.
Com aproximadamente 12,9 milhões de seguidores, o coletivo informou ter recebido 120 milhões de unidades da criptomoeda $B22, avaliadas pelos próprios integrantes em cerca de US$ 20 mil, o equivalente a aproximadamente R$ 100 mil. O pagamento estava relacionado à divulgação de conteúdo favorável ao candidato do PL, que disputa o segundo turno da eleição presidencial contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT), marcado para 25 de outubro.
A intenção inicial, segundo os responsáveis pelo grupo, era destinar os recursos à conclusão de uma residência destinada às crianças e adolescentes participantes do projeto social, desenvolvido na periferia de Kampala, capital de Uganda.
Em manifestação encaminhada à BBC News Brasil, os representantes afirmaram que não tinham a intenção de participar de uma campanha eleitoral e que foram surpreendidos pela reação do público.
“Vamos devolver os tokens a eles, para pedir desculpas a todos, porque pensamos que os tokens serviriam para nos ajudar a construir e terminar nossa casa dos sonhos. Mas houve comentários políticos demais, e não queremos partidos políticos”, declarou o grupo.
“Estamos aqui para dançar e fazer as pessoas felizes, não para política. Não sabíamos que as pessoas não iam gostar”, acrescentaram.
Os integrantes também reafirmaram a relação de carinho com o público brasileiro e disseram que não desejam associar suas atividades a disputas partidárias.
Até o momento da manifestação, não haviam sido apresentados detalhes sobre o procedimento de devolução dos ativos digitais. Tampouco foram identificados os responsáveis pela negociação comercial ou pela autorização da publicação.
Vídeo ultrapassou 3,5 milhões de visualizações antes de ser retirado
A controvérsia teve início na quarta-feira (7), quando o perfil do Hypers Kids Africa divulgou uma gravação na qual crianças apareciam dançando com camisetas amarelas, acompanhadas de uma música que incentivava o voto no número 22, utilizado por Flávio Bolsonaro.
A publicação também mencionava o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o influenciador Pablo Marçal, associando os três nomes à iniciativa.
Na legenda, o perfil anunciava o recebimento de 120 milhões de tokens $B22 e estimulava os seguidores a adquirir a criptomoeda e divulgar o conteúdo eleitoral.
Antes de desaparecer da plataforma, o vídeo havia acumulado mais de 3,5 milhões de visualizações.
O grupo sustenta que não manteve contato com partidos políticos ou representantes de campanhas eleitorais. Essa declaração, entretanto, não esclarece quem intermediou o pagamento nem quais condições foram estabelecidas para a divulgação.
Criptomoeda associa propaganda eleitoral a incentivos financeiros
O projeto Brasil 22 Token, responsável pela distribuição da moeda digital, foi apresentado publicamente na terça-feira (6). A iniciativa utiliza uma meme coin, modalidade de criptoativo cuja popularidade costuma estar vinculada a tendências, comunidades virtuais e movimentos nas redes sociais.
Diferentemente de ativos financeiros tradicionais, essas moedas podem sofrer oscilações acentuadas de preço, frequentemente influenciadas pela exposição pública e pelo interesse dos usuários.
No caso da $B22, a estratégia divulgada pelo projeto estabeleceu uma associação entre a circulação de mensagens favoráveis a Flávio Bolsonaro e a distribuição de tokens aos participantes.
A plataforma anunciou recompensas digitais a usuários que compartilhassem publicações relacionadas ao candidato. Também informou que parte dos recursos obtidos com a comercialização da moeda seria destinada a projetos sociais voltados às crianças de Uganda.
Apesar da vinculação explícita ao número eleitoral do candidato, os organizadores afirmam que a iniciativa é independente e não possui relação institucional com Flávio Bolsonaro, o PL ou sua campanha.
O projeto também sustenta que os benefícios digitais seriam concedidos pela participação e divulgação da iniciativa, e não em troca do voto propriamente dito.
A distinção, no entanto, é questionada por especialistas em legislação eleitoral, que apontam a possibilidade de remuneração indireta por propaganda política.

Campanha de Flávio Bolsonaro nega participação e anuncia medidas judiciais
Diante da repercussão, a equipe jurídica de Flávio Bolsonaro negou qualquer envolvimento com a criação, administração ou comercialização da criptomoeda.
Os representantes do candidato anunciaram a intenção de adotar medidas judiciais nas esferas eleitoral, cível e criminal para retirar do ar a plataforma responsável pela distribuição dos ativos.
Segundo a campanha, não existe autorização para que terceiros utilizem a candidatura como instrumento de promoção comercial de criptomoedas.
A assessoria também declarou que não mantém contratos com perfis destinados à divulgação remunerada de produtos ou conteúdos eleitorais e que seus canais oficiais foram comunicados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), conforme a legislação vigente.
A equipe de Nikolas Ferreira informou desconhecer a iniciativa. Pablo Marçal, também mencionado na publicação, não havia apresentado manifestação até a divulgação das informações.
Paralelamente, a coligação de Lula levou o caso à Justiça Eleitoral, solicitando investigação sobre possíveis irregularidades relacionadas ao uso de ativos digitais na promoção de candidaturas.
Projeto anunciou novos influenciadores e ampliação das publicações
Mesmo diante das críticas, o Brasil 22 Token divulgou planos para expandir sua presença nas redes sociais durante as semanas que antecedem o segundo turno.
Em publicações na plataforma X, os responsáveis afirmaram possuir mais de 20 criadores de conteúdo com vídeos preparados para divulgação.
“A distribuição de conteúdo continuará diariamente até 25 de outubro. Os maiores canais envolvidos ainda não publicaram seus conteúdos”, informou o projeto.
A iniciativa também anunciou planos de disponibilizar pagamentos por Pix para facilitar a aquisição da criptomoeda.
Outro ponto mencionado pelos organizadores foi a tentativa de recuperar o alcance digital do Hypers Kids Africa, que, segundo a própria plataforma, teria perdido aproximadamente 100 mil seguidores após publicar o vídeo eleitoral.
Os responsáveis pelo token incentivaram os usuários a compartilhar materiais e interagir positivamente com as publicações, estratégia que poderia ampliar a circulação da moeda e estimular sua negociação.
O projeto afirma que a $B22 opera na rede blockchain Solana e possui oferta declarada de 1 bilhão de unidades.
Em suas comunicações, reconhece os riscos associados à negociação de criptoativos e adverte que os compradores podem perder integralmente os valores investidos.
Especialista aponta possível abuso de poder econômico e propaganda remunerada
A estrutura utilizada pelo Brasil 22 Token levanta questionamentos sobre a legalidade de recompensas financeiras, ainda que indiretas, pela circulação de propaganda eleitoral.
Para o advogado Raimundo Fernandes Neto, doutor em Direito Constitucional e coordenador acadêmico da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), o modelo reúne características que podem representar infrações à legislação.
“É uma engrenagem que junta três camadas bem inusitadas: uma moeda que vai valorizando a partir da sua interação social, um influenciador e uma causa eleitoral muito clara, que é a propaganda do $B22, vinculada ao Bolsonaro”, avaliou.
Na interpretação do especialista, o mecanismo cria uma relação econômica entre a divulgação de mensagens políticas e a valorização dos ativos recebidos pelos participantes.
“Todos esses influenciadores que vão postar e repostar, cada vez mais as postagens vinculadas ao conteúdo vão valorizar a criptomoeda, e ele receberá de acordo com esse valor. Então ele está sendo remunerado pelas suas postagens.”
O advogado considera que a operação pode reunir elementos de abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação social, hipóteses que dependem de apuração e eventual reconhecimento pela Justiça Eleitoral.
A legislação brasileira estabelece restrições à contratação de influenciadores para propaganda eleitoral remunerada, inclusive quando os pagamentos são realizados de maneira indireta.
As normas também alcançam conteúdos produzidos no exterior quando destinados a interferir na disputa eleitoral brasileira.
Estratégia apresenta semelhanças com caso de Pablo Marçal
Fernandes Neto identifica pontos de aproximação entre o modelo de remuneração em criptomoedas e os concursos de cortes de vídeos promovidos por Pablo Marçal durante a eleição municipal de São Paulo, em 2024.
Na ocasião, participantes eram incentivados financeiramente a produzir e divulgar trechos de gravações do então candidato, ampliando sua presença nas plataformas digitais.
A prática foi objeto de questionamentos judiciais e resultou em condenação por abuso de poder econômico. Em dezembro de 2025, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo manteve decisão de inelegibilidade de Marçal por oito anos relacionada ao concurso de cortes.
Para o advogado, o elemento central das duas situações é a oferta de vantagens econômicas para ampliar a divulgação de conteúdo eleitoral.
“O princípio é o mesmo: eu pagar influenciadores ou pessoas quaisquer que se tornam influenciadores para fazer propaganda”, afirmou.
O especialista também considera que a eventual ausência de conhecimento direto do candidato não impediria a análise de possível benefício eleitoral decorrente da propaganda.
Isso não significa, entretanto, que exista responsabilização automática. A caracterização de abuso de poder econômico, assim como a definição de seus responsáveis e beneficiários, depende da avaliação das provas e das circunstâncias concretas.
Justiça Eleitoral poderá examinar atuação de plataforma sediada no exterior
A localização internacional dos responsáveis pelo projeto representa um desafio adicional para eventuais investigações.
O domínio eletrônico utilizado pelo Brasil 22 Token aparece em registros públicos com informações de titularidade protegidas, o que pode dificultar a identificação dos administradores e o rastreamento das operações.
Além disso, a circulação de conteúdos por perfis estrangeiros exige procedimentos específicos para obtenção de dados e cumprimento de eventuais determinações judiciais.
Fernandes Neto considera que a associação entre criptomoedas, influenciadores digitais e mensagens políticas impõe novos desafios à fiscalização das campanhas.
“O direito eleitoral tem que se amoldar a essa realidade, porque o objetivo do direito eleitoral é tornar a disputa igualitária”, afirmou.
O TSE estabelece limites à propaganda eleitoral remunerada por influenciadores, inclusive quando realizada por perfis sediados fora do Brasil. A participação espontânea de cidadãos e criadores de conteúdo permanece permitida, desde que observadas as regras aplicáveis.
Procurado sobre o episódio, o tribunal informou que não comenta situações que possam ser submetidas à apreciação da Justiça Eleitoral.
Grupo conquistou milhões de seguidores com músicas brasileiras
Hypers Kids Africa tornou-se conhecido internacionalmente pelas apresentações coreografadas de crianças e adolescentes de comunidades periféricas de Kampala.
Criado por Butindo Moses, o projeto reúne participantes de aproximadamente 7 a 15 anos e utiliza a dança como instrumento de inclusão e mobilização social.
A aproximação com o Brasil ocorreu principalmente por meio de vídeos embalados por músicas populares nacionais, entre elas Sequência de Lovezinho, de Treyce, e Zona de Perigo, de Léo Santana.
As gravações frequentemente apresentam elementos associados à cultura brasileira, como a bandeira nacional e camisetas da seleção de futebol.
A popularidade alcançada nas plataformas levou o grupo a receber reconhecimento de artistas brasileiros e a participar da 19ª temporada do programa norte-americano America’s Got Talent.
A trajetória social do fundador ajuda a explicar a finalidade original da organização. Órfão desde a infância, Moses relatou, em entrevista à televisão brasileira, que passou a viver nas ruas após perder os pais em um acidente automobilístico, em 2009.
A experiência o aproximou de outras crianças em situação de vulnerabilidade e inspirou a criação do grupo.
Entre seus principais objetivos está a construção de uma estrutura permanente para oferecer moradia, educação e melhores condições de vida aos participantes.
Foi justamente essa necessidade que, segundo os responsáveis, motivou a aceitação da parceria envolvendo os tokens digitais.
A retirada do vídeo e o anúncio de devolução dos recursos encerraram a participação pública do grupo naquela ação, mas não eliminaram os questionamentos sobre o financiamento da iniciativa.
O episódio expõe uma questão que poderá ganhar relevância na reta final da disputa presidencial: até que ponto mecanismos de recompensa financeira associados a criptomoedas podem ser utilizados para ampliar a propaganda eleitoral sem caracterizar remuneração irregular ou abuso de poder econômico?
A resposta dependerá da identificação dos responsáveis, do exame das transações realizadas e da avaliação da Justiça Eleitoral sobre a efetiva finalidade da operação.
( ComBBC News Brasil )




