Da cortesia ao constrangimento: Evolução das condições para torcedores em Copas recentes
O padrão histórico da FIFA em edições anteriores era claro: anfitriões alinhavam-se aos interesses da entidade, oferecendo facilidades inéditas para oficiais e torcedores. A Rússia 2018, por exemplo, dispensou a necessidade de visto para ingresso, substituído pelo ‘Fan ID’ – documento personalizado que atestava a participação no evento esportivo. No Catar 2022, a ‘Hayya Card’ unificou funções ao atestar entrada no país e acesso aos estádios, num modelo que, embora controverso por seus excessos de vigilância, cumpria sua principal promessa: simplificar a experiência do visitante.
Estados Unidos 2026: O paradoxo da segurança máxima e da inacessibilidade
O cenário atual nos EUA contrasta radicalmente com esse histórico. A política migratória restritiva, intensificada durante o governo Trump (cuja administração endossou a candidatura vencedora em 2017), impõe barreiras burocráticas que desestimulam a presença de torcedores internacionais. ‘Você deveria estar acolhendo fãs de todo o mundo, mas, neste momento, eles não se sentem nem um pouco bem-vindos’, declarou Thomas Concannon, líder da FSA (Football Supporters’ Association) inglesa, em entrevista à BBC Sport em abril de 2026. A crítica não se limita à burocracia: a ausência de um mecanismo equivalente ao ‘Fan ID’ ou ‘Hayya Card’ – que combinava logística e segurança – deixa um vazio que a FIFA parece incapaz de preencher, mesmo com o torneio já confirmado.
Consequências para a reputação da FIFA: Entre o controle perdido e a ilusão do controle
A entidade máxima do futebol enfrenta um dilema estratégico. Se, por um lado, a escolha dos anfitriões é sempre cercada de promessas de cooperação irrestrita, a realidade mostra que a governança global do esporte depende menos de resoluções formais e mais de alianças geopolíticas voláteis. A incapacidade de garantir condições mínimas para torcedores em um país que sediará metade dos jogos do torneio – incluindo confrontos decisivos – levanta dúvidas sobre a capacidade da FIFA de gerir eventos de magnitude similar no futuro. Não se trata apenas de uma falha logística, mas de um teste à sua autoridade: quem realmente comanda o espetáculo quando os anfitriões priorizam outras agendas?

