Animais lideram acidentes com espécies peçonhentas em Mato Grosso; calor, seca, queimadas, entulhos, redes de esgoto e presença de baratas favorecem aproximação das residências
A presença de escorpiões tornou-se um problema relevante de saúde pública em Mato Grosso, especialmente nas áreas urbanas. Adaptados ao ambiente das cidades, esses aracnídeos encontram abrigo, alimento e condições para reprodução em redes de esgoto, terrenos baldios, restos de construção, quintais, ralos e até dentro das residências.
Os números dimensionam o problema. Em 2025, Mato Grosso registrou 3.860 acidentes com animais peçonhentos. Metade deles — 1.930 ocorrências — foi provocada por escorpiões. No ano anterior, haviam sido contabilizados 1.474 acidentes escorpiônicos, o que representa crescimento de aproximadamente 31% em um ano.
Cuiabá e Várzea Grande também convivem com ocorrências frequentes. Na capital, boletim divulgado pela Secretaria Municipal de Saúde mostra que, somente em julho de 2026, foram registrados 29 acidentes relacionados a escorpiões. As regiões da Grande Morada da Serra e Ribeirão da Ponte apareceram entre as áreas com maior concentração de casos naquele mês.
Em Várzea Grande, dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), divulgados pelo Centro de Controle de Zoonoses, apontam 60 acidentes com escorpiões entre janeiro e agosto de 2026. No mesmo período de 2025 haviam sido 88 casos. Apesar da redução de aproximadamente 32%, o escorpião continua liderando os acidentes com animais peçonhentos no município. A Região 1, que abrange localidades como Grande Cristo Rei, Parque do Lago, Uniparque, Santa Clara, Aurília Curvo, parte do Ponte Nova e Manga, concentra maior frequência de notificações.
Calor, seca e queimadas também podem levar animais para dentro das casas
Embora o período de aumento da temperatura e da umidade seja tradicionalmente associado a maior atividade dos escorpiões, as condições ambientais verificadas durante a estiagem também exigem atenção em Mato Grosso.
Em Várzea Grande, o Centro de Controle de Zoonoses alertou neste mês de agosto que calor intenso, seca e queimadas podem provocar o deslocamento de animais peçonhentos em busca de água, alimento, abrigo e temperaturas mais amenas, aumentando a possibilidade de entrada em residências.
O crescimento das áreas urbanizadas, a existência de terrenos baldios, o descarte irregular de lixo e o acúmulo de materiais de construção também ajudam a criar ambientes propícios para a permanência e disseminação dos escorpiões.
Por que os escorpiões se adaptaram tão bem às cidades?
O ambiente urbano oferece praticamente tudo o que esses animais necessitam para sobreviver: locais escuros para se esconder, água, temperatura favorável e abundância de alimento.
As baratas estão entre suas principais presas. Por isso, imóveis ou regiões com infestação desses insetos acabam oferecendo uma fonte constante de alimento aos escorpiões.
A capacidade de reprodução de algumas espécies também preocupa especialistas. O escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), considerado uma das espécies de maior importância médica no Brasil, pode se reproduzir por partenogênese, processo pelo qual a fêmea gera descendentes sem necessidade de fecundação por um macho. Essa característica contribui para sua capacidade de ocupar rapidamente novos ambientes urbanos.
Em Mato Grosso, também merece atenção o escorpião-preto-da-Amazônia (Tityus obscurus), apontado pelo Ministério da Saúde como uma das espécies de importância médica e relevante na ocorrência de acidentes no Estado.
Eles podem estar em locais inesperados
Durante o dia, os escorpiões costumam permanecer escondidos e aumentam sua atividade principalmente durante a noite. Por isso, podem passar despercebidos mesmo dentro de uma residência.
Entre os esconderijos mais comuns estão pilhas de tijolos, telhas, madeiras e pedras; entulhos e restos de obras; folhas secas e material orgânico; caixas e objetos guardados por muito tempo; frestas de paredes e pisos; rodapés soltos; ralos, caixas de gordura e redes de esgoto; atrás de móveis e armários; além de roupas, toalhas, sapatos e peças deixadas no chão.
Terrenos baldios, depósitos, garagens, áreas de serviço e quintais com objetos acumulados também oferecem condições favoráveis para os animais.
Ralos são uma das principais portas de entrada
A facilidade de circulação por tubulações faz com que banheiros, cozinhas e áreas de serviço mereçam cuidados especiais. Escorpiões conseguem utilizar redes de esgoto e drenagem e acessar imóveis por ralos e outras aberturas.
A instalação de telas ou sistemas de vedação em ralos de banheiros, pias e tanques está entre as medidas recomendadas pelo Ministério da Saúde. Também é importante eliminar frestas em paredes e pisos e corrigir rodapés soltos.
Baratas precisam ser combatidas
Eliminar o escorpião encontrado dentro de uma casa não significa necessariamente resolver o problema. Se o ambiente continuar oferecendo esconderijos e alimento, outros animais podem permanecer no imóvel ou voltar a aparecer.
O controle de baratas é considerado uma das principais medidas preventivas. Lixo doméstico deve permanecer acondicionado em recipientes fechados, restos de alimentos precisam ser retirados e caixas de gordura e áreas de descarte devem ser mantidas limpas.
A Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá resume a prevenção no combate aos chamados “quatro As”: água, alimento, abrigo e acesso.
Crianças apresentam maior risco de casos graves
A picada costuma provocar dor imediata, que pode ser intensa e acompanhada por formigamento, vermelhidão e suor no local atingido.
Nos quadros moderados ou graves podem surgir náuseas, vômitos, suor intenso, excesso de salivação, agitação, tremores, alterações da pressão arterial e dos batimentos cardíacos e dificuldade respiratória. Casos mais severos podem evoluir para insuficiência cardíaca, edema pulmonar e choque.
As crianças representam o principal grupo de risco para envenenamento sistêmico grave. O Ministério da Saúde destaca que os casos graves e óbitos ocorrem com maior frequência entre menores de 10 anos.
Por isso, uma criança picada por escorpião deve receber atendimento médico imediatamente, mesmo que inicialmente apresente apenas dor.
Veja como reduzir o risco dentro e fora de casa
Entre as medidas recomendadas estão manter quintais, jardins e terrenos limpos; retirar entulhos, tijolos, telhas e madeira acumulada; manter a vegetação aparada; combater baratas; conservar o lixo em recipientes fechados; instalar telas em ralos; vedar frestas em paredes, portas, pisos e rodapés; afastar camas e berços das paredes e impedir que lençóis e cobertores encostem no chão.
Sapatos, botas, roupas e toalhas devem ser sacudidos e examinados antes do uso, principalmente quando ficaram guardados ou no chão.
Ao trabalhar com entulho, madeira, materiais de construção ou jardinagem, é recomendável utilizar luvas resistentes e calçados fechados. Nunca se deve colocar as mãos diretamente em buracos, sob pedras, madeiras, telhas ou locais onde não seja possível visualizar o interior.
O que fazer após uma picada
A orientação é procurar assistência médica imediatamente. O local pode ser lavado com água e sabão, desde que isso não atrase o deslocamento para a unidade de saúde.
Não se deve cortar ou perfurar o local, fazer torniquete, tentar sugar o veneno ou aplicar álcool, pó de café, folhas, pomadas ou outras substâncias caseiras.
Se for possível fotografar o escorpião sem colocar ninguém em risco, o registro pode auxiliar na identificação. A tentativa de captura, no entanto, não deve atrasar o atendimento nem expor outras pessoas ao acidente.
Cuiabá possui atendimento especializado 24 horas
Na capital, o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) funciona 24 horas no setor de emergência do Hospital Municipal de Cuiabá (HMC), no bairro Ribeirão do Lipa.
O serviço é referência no atendimento a vítimas de animais peçonhentos e pode realizar avaliação, acompanhamento e, quando clinicamente indicado, tratamento com soro antiveneno.
Os telefones para orientação são (65) 3318-6913 e 0800-722-6001. Em situações de emergência, também podem ser acionados o Samu, pelo 192, e o Corpo de Bombeiros, pelo 193.
Vigilância precisa ser permanente
Os dados mostram que os escorpiões já representam a principal causa de acidentes com animais peçonhentos em Mato Grosso. Mesmo quando há redução das notificações em determinado período ou município, a elevada capacidade de adaptação desses animais ao espaço urbano impede que a prevenção seja abandonada.
Em Cuiabá e Várzea Grande, onde altas temperaturas, expansão urbana, terrenos baldios, redes de drenagem, entulhos e períodos de seca ou chuva criam diferentes condições para o deslocamento dos animais, o controle depende tanto das ações do poder público quanto dos cuidados adotados dentro de cada imóvel.
Eliminar alimento, água, abrigo e pontos de acesso continua sendo a forma mais eficaz de diminuir a presença dos escorpiões e, principalmente, evitar que um encontro inesperado termine em uma emergência médica.

