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ENTRE O PÔR E O NASCER DO SOL – Por: Wilton Emiliano Pinto

Missias
27 de agosto de 2026 às 10:04
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ENTRE O PÔR E O NASCER DO SOL –  Por: Wilton Emiliano Pinto

© Wilton Emiliano Pinto

Ontem, à beira do Araguaia, em Aruanã, parei diante do pôr do sol.

Gosto daquele instante em que o dia parece diminuir o passo.

 

O sol desce lentamente em direção ao horizonte, espalhando pelo céu tons de vermelho, dourado e azul.

 

A luz vai se despedindo sem pressa, como se o próprio dia precisasse de alguns minutos para aceitar que chegou ao fim.

 

Em outros momentos, da sacada do meu apartamento, em Goiânia, contemplo o espetáculo contrário: o nascer do sol.

 

Ali, não vejo uma despedida.

Vejo uma chegada.

O céu, ainda tímido, começa a clarear. Depois, a luz ganha força e se espalha, anunciando que uma nova manhã está começando.

 

São dois momentos diferentes.

No Araguaia, o sol se põe.

Em Goiânia, ele nasce.

 

Um encerra o dia.

O outro abre espaço para um novo começo.

 

E foi olhando para esses dois momentos que percebi como o céu, sem dizer uma única palavra, pode nos ensinar sobre a vida.

 

O pôr do sol me fala de encerramentos.

 

Lembra-me que nada permanece para sempre.

Há ciclos que precisam terminar, portas que precisam se fechar e momentos dos quais, por mais que desejemos, não podemos exigir permanência.

 

O nascer do sol me fala de recomeços.

Ensina que a noite, por mais longa que seja, não consegue impedir a chegada da manhã.

 

A vida também é feita de pores e nascimentos.

Ao longo dos anos, vi pessoas chegarem e partirem.

Sonhos nascerem e desaparecerem.

Caminhos se abrirem e, mais tarde, se fecharem.

 

Houve despedidas que eu não queria fazer.

Houve perdas que não compreendi.

E houve recomeços que só reconheci depois que já estavam acontecendo.

 

Quando somos jovens, o futuro parece enorme.

Temos a impressão de que haverá tempo para tudo.

O amanhã parece distante, quase infinito.

 

Com os anos, porém, descobrimos uma verdade simples:

O amanhã não é uma certeza. É uma oportunidade.

 

Talvez por isso, quando olhamos para trás, o passado ganhe outro significado.

 

Uma música antiga, o cheiro da chuva na terra, uma fotografia ou uma voz podem nos transportar, por alguns instantes, para uma época que já não existe.

 

Então sentimos vontade de dizer:

“Leve-me de volta para minha antiga casa.”

 

Mas logo percebemos que aquela casa talvez não seja um lugar.

É um tempo.

É a infância.

É a juventude.

É uma época em que o mundo parecia mais simples e o amanhã era apenas o dia seguinte.

 

A estrada do tempo, porém, é de mão única.

Não podemos voltar à antiga casa.

Podemos apenas visitá-la através da memória.

E talvez isso seja suficiente.

 

Porque não precisamos voltar ao passado para preservar aquilo que fomos.

Podemos carregar conosco os melhores pedaços daquela antiga casa:

um cheiro, uma voz, um abraço, um ensinamento, uma lembrança.

 

O passado não pode ser vivido novamente.

Mas pode continuar vivendo dentro de nós.

 

Foi pensando nisso que voltei a olhar para o pôr do sol do Araguaia.

O sol desaparecia lentamente.

 

Por alguns minutos, tive a sensação de estar diante de uma despedida.

Então me lembrei do nascer do sol que tantas vezes observo da minha sacada, em Goiânia.

 

O mesmo sol que desaparece diante dos meus olhos em Aruanã estará nascendo, horas depois, em algum outro lugar.

E essa constatação me trouxe paz.

 

Talvez a vida seja assim.

Enquanto alguma coisa termina em nós, outra começa.

Enquanto uma porta se fecha, outra pode estar se abrindo.

Enquanto fazemos uma despedida, em algum lugar já está acontecendo uma chegada.

 

Mas entre o pôr e o nascer do sol existe a noite.

E talvez não devêssemos ter tanto medo dela.

 

A noite é tempo de silêncio, recolhimento e reflexão.

É quando o mundo diminui o barulho e podemos ouvir aquilo que, durante o dia, não conseguimos escutar dentro de nós.

 

Talvez alguns finais precisem da noite antes que possamos compreender o que significam.

E talvez alguns recomeços só sejam possíveis depois que aprendemos a aceitar aquilo que terminou.

 

Por isso, às vezes me pergunto:

Quantos pores do sol ainda teremos diante dos olhos?

Quantos nasceres ainda teremos a oportunidade de contemplar?

Ninguém sabe.

 

E talvez seja justamente essa incerteza que torne cada amanhecer tão precioso.

Amanhã, talvez eu esteja novamente na sacada, em Goiânia, esperando o sol nascer.

 

E talvez me lembre daquele fim de tarde em Aruanã, quando fiquei diante do Araguaia vendo o sol desaparecer.

Então compreenderei, mais uma vez, que não existe um sol para o fim e outro para o começo.

 

É o mesmo sol.

O que muda é o momento em que o contemplamos.

 

Talvez conosco seja assim também.

Há momentos em que precisamos aceitar que alguma coisa chegou ao fim.

E há outros em que precisamos abrir os olhos para perceber que alguma coisa nova está começando.

 

Talvez a grande sabedoria da vida não esteja em impedir o pôr do sol, mas em aprender a esperar o nascer.

 

Porque ninguém pode impedir a noite.

Mas também ninguém pode impedir a manhã de chegar.

 

Entre o pôr e o nascer do sol, existe a noite.

Entre o fim e o recomeço, existe o tempo.

 

E talvez a pergunta que realmente importa seja:

O que estamos fazendo com o tempo que nos foi dado entre um e outro?

 

A resposta, talvez, seja a nossa própria vida.

A minha vida. A sua vida.

Wilton escreve sobre os fins que a vida encerra e os recomeços que cada amanhecer oferece.