Família questiona atendimento pós-operatório e pede investigação sobre possível homicídio culposo
Procedimentos e custo da cirurgia
A empresária Andreia Vieira Gaspar, de 51 anos, morreu na madrugada de 12 de agosto, após ser submetida a uma série de procedimentos estéticos em um hospital de Goiânia. Moradora da Espanha havia cinco anos, ela retornou ao Brasil para realizar uma cirurgia que, segundo a família, representava um antigo sonho.
De acordo com a irmã, Djiane Vieira, Andreia economizou durante dois anos para pagar R$ 118 mil pelo procedimento. A operação incluiu ritidoplastia facial profunda, frontoplastia, mentoplastia, blefaroplastia, intervenções no pescoço e na mandíbula, além de aplicação de gordura e células do próprio corpo.
A cirurgia foi realizada em 11 de agosto, sob anestesia geral, e durou mais de oito horas. Conforme a representação apresentada pela família, os procedimentos ocorreram entre 7h45 e 16h20, com indução anestésica às 8h10.
Exames foram feitos na Espanha
Antes de viajar ao Brasil, Andreia realizou exames solicitados pela equipe médica na Espanha. Os resultados foram encaminhados aos profissionais em julho e, segundo a família, indicaram anticorpos para Borrelia burgdorferi e Brucella, que poderiam sugerir um processo infeccioso ou inflamatório recente.
A empresária também informou os medicamentos que utilizava, incluindo hormônios, e teria recebido orientação para interromper o uso uma semana antes da cirurgia. A família questiona se os exames e as condições clínicas foram avaliados de forma suficiente antes da autorização do procedimento.
Outro ponto mencionado na representação é que Andreia havia feito uma viagem transatlântica e retornado ao Brasil oito dias antes da operação. Os familiares pedem que uma perícia avalie se a viagem, os exames e a combinação de procedimentos aumentaram os riscos cirúrgicos.
Consulta presencial foi cancelada
Andreia chegou a Goiânia em 3 de agosto e tinha uma consulta presencial marcada para o dia 10. Segundo Djiane, a secretária informou que o encontro havia sido cancelado e que a avaliação seria feita pelo médico no centro cirúrgico.
Dessa forma, o primeiro contato presencial da empresária com parte da equipe ocorreu no hospital, em 11 de agosto, quando ela foi internada para a cirurgia.
A família afirma que as orientações anteriores foram transmitidas principalmente por telefone e pelas redes sociais. A ausência de uma avaliação presencial antes da operação passou a ser questionada no pedido de investigação apresentado ao Ministério Público de Goiás.
Paciente apresentou dificuldade respiratória
Depois da cirurgia, Andreia foi levada para um apartamento comum. Conforme a representação, ela apresentava edema facial intenso, aumento da língua e secreções nas vias aéreas.
A irmã percebeu alterações no estado da empresária e afirmou que chamou a atenção da equipe médica. Segundo o documento, durante a noite a paciente teria relatado dificuldade progressiva para respirar e sensação de afogamento.
A família afirma que profissionais de enfermagem teriam interpretado os sintomas como “nervosismo”, “frescura” e que Andreia estaria “dando piti”. O documento também registra que a paciente teria pedido ajuda em diferentes momentos.
“mana, mana, chama um médico”
“sentia algo anormal em sua glote”
“Eu estou morrendo, chama o médico, chama o médico”.
Às 0h50 do dia 12 de agosto, uma médica plantonista teria avaliado Andreia e registrado no prontuário uma queixa de “desconforto cervical anterior”. Segundo a representação, foram prescritos analgésico e oxigênio por cateter nasal.
A família questiona se a conduta foi suficiente diante dos sinais respiratórios e solicita que uma perícia avalie a existência de eventual atraso no diagnóstico ou na transferência para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Parada cardiorrespiratória
Entre 2h15 e 2h20, Andreia teria sofrido queda abrupta na saturação e entrado em parada cardiorrespiratória. Uma acompanhante enviou uma mensagem de áudio ao grupo de WhatsApp da clínica.
“A minha irmã tá morrendo, pelo amor de Deus. Vocês ninguém atende, ninguém aparece, pelo amor de Deus.”.
Segundo a representação, o cirurgião chegou ao hospital entre 2h20 e 2h45, quando a paciente já recebia manobras de ressuscitação cardiopulmonar.
Após as tentativas de reanimação, o óbito foi declarado às 4h15. A família afirma que Andreia morreu nos braços da irmã.
Laudo aponta trombose e infarto
O laudo citado pelos familiares indicou trombose aguda e infarto pulmonar como causas da morte. A representação também menciona a presença de secreção mucóide hemorrágica nas vias aéreas, infartos pulmonares nas bases dos pulmões e trombose coronariana aguda no tronco da artéria coronária esquerda.
Os familiares pedem uma perícia médico-legal independente para definir a causa imediata da morte e verificar se houve relação entre os procedimentos, as condições anteriores da paciente e as complicações apresentadas no pós-operatório.
A defesa também questiona a realização da necropsia e afirma que o médico responsável pela cirurgia teria acompanhado o exame no Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) de Goiânia. A família solicita que essa circunstância seja apurada.
Ministério Público pede investigação
O Ministério Público de Goiás encaminhou à Polícia Civil um pedido de abertura de inquérito para apurar a possível prática de homicídio culposo. A representação apresentada pela família menciona, em tese, a possibilidade de inobservância de regras técnicas da profissão.
Entre os pontos que deverão ser investigados estão:
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Avaliação dos exames realizados antes da operação.
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Autorização da cirurgia sem consulta presencial prévia.
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Combinação de vários procedimentos em uma única operação.
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Transferência da paciente para um quarto comum.
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Falta de suporte intensivo no pós-operatório.
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Atendimento diante das dificuldades respiratórias.
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Tempo de resposta à parada cardiorrespiratória.
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Relação entre as condutas médicas e a morte.
A família ressalta que não pretende antecipar culpa e que a definição de eventual responsabilidade depende de perícias, depoimentos e análise dos documentos.
Família pede preservação de provas
O pedido encaminhado ao Ministério Público inclui a preservação de prontuários, imagens de câmeras, registros eletrônicos, gravações, documentos médicos e outros materiais que possam auxiliar na apuração.
Também foram solicitados depoimentos dos profissionais envolvidos, análise da estrutura hospitalar, verificação da disponibilidade de leitos e avaliação dos recursos utilizados durante as tentativas de reanimação.
Segundo a representação, a família buscou esclarecimentos junto ao hospital e ao SVO. A unidade hospitalar não teria respondido à notificação extrajudicial, enquanto o SVO teria confirmado apenas o recebimento do documento. A defesa destaca que a falta de resposta não representa, por si só, presunção de culpa.
Médico e hospital se manifestam
O médico Lessandro Martins lamentou a morte de Andreia e informou que não comentará dados clínicos por causa do sigilo médico.
“Em respeito ao sigilo médico, que persiste mesmo após o óbito, por imposição do código de ética médica, não serão comentados publicamente dados clínicos, exames ou detalhes do atendimento e que todos os esclarecimentos serão prestados, com total colaboração, aos órgãos competentes, únicos foros adequados para a apuração dos fatos”, diz a nota de Lessandro à TV.
O Hospital Ankar também afirmou que lamenta o falecimento e que Andreia recebeu atendimento emergencial imediato, com assistência médica e de enfermagem. A unidade declarou que os exames pré-operatórios foram realizados externamente e que todos os registros estão documentados em prontuário, podendo ser entregues às autoridades.
O Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego) informou que denúncias sobre condutas éticas de médicos são apuradas em sigilo, conforme as regras do processo ético-profissional.
Irmã cobra respostas
Djiane Vieira afirmou que a família busca esclarecer as circunstâncias da morte e responsabilizar eventuais envolvidos, caso sejam identificadas falhas.
“A minha irmã pagou R$ 118 mil para entrar linda como era para que ela morresse nos meus braços”, desabafou a irmã da empresária.
A irmã também relembrou a expectativa de Andreia antes da cirurgia.
“Ela era uma princesa. Eu falava: ‘Mana, você não precisa disso’. Ela falava: ‘Mana, eu preciso porque é o meu sonho’”.
A Polícia Civil deverá analisar os documentos e os depoimentos para verificar se houve negligência, imprudência ou imperícia. Até o momento, não houve definição sobre responsabilidade criminal.


