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Política

Eleições nos EUA ameaçam poder de Trump e podem redefinir relação com o Brasil no quarto mandato de Lula

Redação
2 de novembro de 2026 às 08:27
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Eleições nos EUA ameaçam poder de Trump e podem redefinir relação com o Brasil no quarto mandato de Lula
Divulgação / DayNews

Com os democratas favoritos para recuperar o controle da Câmara e disputar a maioria no Senado, votação desta terça-feira poderá limitar a agenda do presidente americano, ampliar a fiscalização sobre sua política externa e abrir novas possibilidades diplomáticas para o governo brasileiro.

As eleições legislativas dos Estados Unidos, marcadas para esta terça-feira (3), poderão provocar uma mudança significativa no equilíbrio de forças em Washington e influenciar diretamente as relações diplomáticas entre americanos e brasileiros. A votação ocorre apenas nove dias depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e representa um teste decisivo para o presidente Donald Trump, que enfrenta desgaste político, queda de popularidade e a possibilidade de perder o controle do Congresso na segunda metade de seu mandato.

O resultado terá consequências que ultrapassam as fronteiras americanas. Uma eventual vitória da oposição democrata poderá restringir a capacidade de Trump de impor sua agenda comercial e militar, além de modificar a condução da política externa dos Estados Unidos, especialmente em relação à América Latina.

Para Lula, que iniciará seu quarto mandato presidencial em janeiro de 2027, uma nova configuração do Congresso americano poderá representar a oportunidade de reconstruir canais diplomáticos prejudicados por disputas comerciais, sanções políticas e divergências sobre segurança regional.

O pleito renovará as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 vagas do Senado, incluindo duas eleições especiais, além de definir governos estaduais e diversos cargos regionais.

Levantamentos eleitorais apontam vantagem dos democratas na disputa pela Câmara e uma possibilidade, embora mais difícil, de conquista do Senado. A perspectiva alimenta expectativas de uma “onda azul”, expressão utilizada na política americana para caracterizar avanços expressivos do Partido Democrata.

Atualmente, os republicanos controlam a Casa Branca e as duas Casas do Congresso, condição que favoreceu a implementação de medidas controversas por Trump, entre elas a ampliação de tarifas de importação, a ofensiva militar contra o Irã e o fortalecimento da presença americana na América Latina.

Relação com o Brasil atravessa período de tensão

Desde seu retorno à Presidência, em janeiro de 2025, Donald Trump adotou uma postura de confronto com o governo brasileiro, combinando instrumentos comerciais e sanções diplomáticas em decisões que provocaram sucessivos atritos entre Brasília e Washington.

Entre as medidas mais controversas estão as tarifas sobre produtos brasileiros e as sanções contra autoridades nacionais, justificadas pelo governo americano como resposta ao que Trump classificou como “perseguição” ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

O desgaste atingiu também o corpo diplomático brasileiro. A embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti teve seu visto revogado em agosto, embora tenha permanecido autorizada a exercer suas funções nos Estados Unidos. A restrição, entretanto, dificulta seu eventual retorno ao território americano caso deixe o país.

Durante a campanha presidencial brasileira, Lula transformou a defesa da soberania nacional em um de seus principais argumentos políticos, criticando as medidas adotadas por Washington e rejeitando interferências externas em assuntos internos.

Trump, por sua vez, evitou declarar apoio público a qualquer candidato na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), diferentemente de sua atuação em outros processos eleitorais latino-americanos.

Uma vitória de Flávio, politicamente alinhado ao republicano, poderia ter ampliado a influência de Washington sobre a política externa brasileira. A reeleição de Lula, entretanto, preservou as divergências entre os dois governos e impôs a necessidade de encontrar mecanismos de convivência diplomática.

O historiador Lucas de Souza Martins, pesquisador da Universidade Temple, na Filadélfia, considera que o presidente brasileiro dispõe de experiência política para administrar essas diferenças.

“Lula sempre foi muito pragmático nas suas relações com os EUA”, afirma.

“Embora tenha utilizado o discurso da soberania como instrumento eleitoral, jamais se furtou de manter aberta a busca por relações através de canais institucionais, bilaterais, com os EUA”, observa.

Desgaste de Trump amplia expectativas de avanço democrata

A eleição americana ocorre em um ambiente político desfavorável ao presidente republicano. Pesquisas recentes indicam que sua popularidade permanece em níveis reduzidos, pressionada principalmente pela insatisfação dos eleitores com a economia.

Levantamento Reuters/Ipsos divulgado em 26 de outubro apontou aprovação de 32% ao governo Trump. Já pesquisa realizada pelo New York Times em parceria com a Siena University, publicada em 21 de outubro, mostrou os democratas com vantagem de 11 pontos percentuais sobre os republicanos na preferência para o Congresso.

A deterioração da avaliação presidencial está associada ao aumento do custo de vida, à inflação persistente e à elevação dos preços dos combustíveis, agravada pela ofensiva militar americana contra o Irã, iniciada em fevereiro.

Também contribuem para o descontentamento as políticas de imigração, denúncias de corrupção e preocupações com os efeitos da expansão da inteligência artificial e dos centros de processamento de dados sobre o consumo de energia e o meio ambiente.

A perda de popularidade alcança segmentos importantes da coalizão eleitoral que garantiu o retorno de Trump à Casa Branca, especialmente jovens e eleitores de origem hispânica.

Diante desse cenário, candidatos republicanos em diferentes Estados têm procurado reduzir sua associação direta com o presidente, enquanto adversários democratas ampliam sua competitividade inclusive em regiões historicamente conservadoras.

O movimento acompanha uma tendência recorrente na política americana: presidentes frequentemente enfrentam derrotas legislativas nas eleições realizadas na metade de seus mandatos.

Em 2022, por exemplo, os republicanos recuperaram a maioria na Câmara dos Representantes durante o governo do democrata Joe Biden.

Controle do Congresso pode impor limites à Casa Branca

A disputa pela Câmara apresenta condições mais favoráveis aos democratas. No Senado, entretanto, o cenário é mais complexo.

Os republicanos ocupam atualmente 53 das 100 cadeiras, enquanto os democratas possuem 45, contando ainda com o apoio de dois parlamentares independentes.

Para assumir o controle da Casa, a oposição precisará conquistar um saldo positivo de quatro cadeiras, resultado considerado mais difícil diante da distribuição geográfica das disputas.

Caso os democratas obtenham maioria em uma ou ambas as Casas, Trump continuará exercendo a Presidência, mas terá de enfrentar um ambiente legislativo significativamente mais hostil.

O Congresso poderá ampliar investigações, convocar autoridades, exigir documentos, realizar audiências públicas e utilizar instrumentos orçamentários para limitar iniciativas do Executivo.

Para o cientista político Michael Traugott, professor emérito da Universidade de Michigan, o principal efeito imediato poderá ser o fortalecimento da fiscalização parlamentar.

“A conquista da maioria na Câmara pelos democratas significaria mais audiências nas comissões parlamentares e, possivelmente, investigações organizadas pelo Congresso”, afirma.

“Não está claro qual será o efeito dessas iniciativas, porque Trump tende a ignorar qualquer questionamento de suas políticas. Mas haverá mais informação pública, incluindo detalhes e custos de políticas específicas. E acho que o Congresso tentará impor limites orçamentários a muitas delas.”

O controle das comissões também permitiria aos democratas examinar decisões adotadas pela administração republicana em áreas consideradas estratégicas, entre elas comércio exterior, imigração, defesa e relações internacionais.

Marco Rubio pode enfrentar pressão sobre política para a América Latina

Uma das figuras mais diretamente afetadas por uma mudança no Congresso poderá ser o secretário de Estado americano, Marco Rubio, responsável pela condução da diplomacia dos Estados Unidos.

Rubio integra a ala republicana favorável a uma política externa mais assertiva em relação à América Latina e disputa influência dentro da administração Trump com integrantes que defendem uma abordagem mais pragmática.

Sua atuação ganhou relevância diante da estratégia americana de ampliar a influência política, econômica e militar sobre países do continente.

Segundo Lucas de Souza Martins, uma vitória democrata também poderá afetar as ambições políticas do secretário de Estado.

“Rubio tem aspirações presidenciais, é uma espécie de pré-candidato republicano”, afirma o historiador.

“Se os democratas assumirem o controle de ambas as Casas e, consequentemente, dos comitês (no Legislativo), vão fazer uma oposição especificamente na política externa, porque ali está um potencial adversário (para a eleição presidencial de 2028).”

A expectativa é que os democratas procurem expor os custos políticos, financeiros e diplomáticos das iniciativas conduzidas por Rubio, especialmente diante da perspectiva de que ele dispute a sucessão presidencial de 2028.

“Consequentemente, a América Latina vai se impor como uma agenda dessa oposição democrata exatamente porque, para Rubio, a América Latina sob domínio americano é uma tarefa específica dele, delegada diretamente pelo presidente dos EUA”, afirma Martins.

Na avaliação do pesquisador, o enfraquecimento político de Trump e Rubio poderá reduzir a centralidade da América Latina nas prioridades da administração republicana.

Para o Brasil, essa mudança teria efeitos ambivalentes. De um lado, poderia diminuir a pressão política exercida por Washington. De outro, exigiria maior iniciativa diplomática para manter temas estratégicos na agenda bilateral.

Política tarifária poderá enfrentar resistência no Legislativo

A política comercial de Trump está entre os principais pontos sujeitos a questionamentos caso os democratas recuperem a maioria parlamentar.

As tarifas impostas a produtos estrangeiros, inclusive brasileiros, foram um dos instrumentos utilizados pelo presidente para pressionar parceiros comerciais e defender sua agenda econômica.

Inicialmente, Trump recorreu à Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, conhecida pela sigla IEEPA, para justificar a imposição de tarifas. Após a Suprema Corte rejeitar essa utilização da legislação, a Casa Branca buscou outras bases jurídicas para preservar sua estratégia comercial.

A Constituição americana atribui ao Congresso competências relacionadas à regulamentação do comércio exterior. Uma maioria oposicionista poderia, portanto, aumentar a pressão sobre as decisões tarifárias e exigir explicações sobre seus impactos econômicos.

A consultora Kristina Rosales, especialista nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos e ex-porta-voz do Departamento de Estado americano, avalia que a oposição terá maior capacidade de contestar as políticas presidenciais.

“Uma maioria democrata na Câmara vai ter muito mais capacidade de fiscalizar o Executivo”, afirma.

O fortalecimento dessa fiscalização, contudo, não significa necessariamente que as barreiras comerciais serão eliminadas.

Trump ainda poderá recorrer a instrumentos administrativos e prerrogativas presidenciais para preservar medidas consideradas prioritárias.

“No caso da política tarifária, acho que seria um cenário complicado de negociação”, ressalta Rosales.

Para o governo Lula, o desafio será explorar possíveis oportunidades de negociação sem pressupor que uma vitória democrata produzirá automaticamente uma mudança na política comercial americana.

Intervenções militares e combate ao narcotráfico entram no centro do debate

A atuação militar dos Estados Unidos na América Latina deverá constituir outra frente de confronto entre republicanos e democratas.

A estratégia da administração Trump combina o fortalecimento de alianças regionais, o combate ao narcotráfico e a ampliação das operações de segurança, em uma política que busca “restaurar a proeminência americana no hemisfério ocidental”.

Nos últimos meses, Washington intensificou a classificação de organizações criminosas latino-americanas como grupos terroristas estrangeiros, incluindo as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).

A decisão recebeu apoio de Flávio Bolsonaro, mas encontrou resistência no governo Lula, preocupado com as possíveis implicações da medida para a soberania brasileira.

Uma das preocupações de Brasília é que o enquadramento de organizações criminosas como terroristas seja utilizado para justificar iniciativas de segurança mais amplas, inclusive ações militares em países da região.

Outro componente dessa estratégia é o chamado Escudo das Américas, aliança lançada pelo governo Trump e integrada por 15 países, predominantemente governados por lideranças de direita.

O Brasil não participa do mecanismo, que pretende aprofundar a cooperação regional em segurança e combate ao narcotráfico.

A oposição democrata também poderá ampliar as investigações sobre ataques americanos a embarcações no Caribe e no Pacífico, operações que provocaram mais de 200 mortes. O governo dos Estados Unidos justificou as ações afirmando que os alvos seriam “narcoterroristas” envolvidos no transporte de drogas, mas a identificação dessas pessoas e a legalidade dos ataques são questionadas.

Outro tema sensível é a intervenção militar na Venezuela, em janeiro, quando forças americanas atacaram Caracas e capturaram Nicolás Maduro, posteriormente transferido aos Estados Unidos para responder a acusações relacionadas ao narcotráfico.

A administração das receitas petrolíferas venezuelanas e os fundamentos jurídicos da operação também poderão ser submetidos a maior escrutínio parlamentar.

Uma eventual maioria democrata teria condições de intensificar a fiscalização por meio das comissões de Defesa e Relações Exteriores, embora o alcance efetivo dessas iniciativas dependa da composição do Congresso e das prerrogativas presidenciais.

Senado poderá dificultar nomeações e aumentar pressão institucional

Além da capacidade de fiscalização, o controle do Senado permitiria aos democratas interferir diretamente na composição de importantes estruturas do governo americano.

A Casa possui atribuições constitucionais para examinar e aprovar indicações presidenciais destinadas a cargos do Executivo, embaixadas e tribunais federais, incluindo eventuais vagas na Suprema Corte.

Uma maioria oposicionista poderia rejeitar nomes apresentados por Trump ou exigir concessões políticas para autorizar determinadas nomeações.

O Legislativo também dispõe de instrumentos para examinar denúncias de abuso de poder e irregularidades administrativas.

Na Câmara, uma maioria democrata poderia abrir processos de impeachment. A eventual destituição do presidente, entretanto, dependeria de condenação pelo Senado, mediante o apoio de dois terços dos parlamentares presentes.

Apesar dessas possibilidades, a capacidade de resistência institucional teria limites.

Trump conservaria o poder de veto sobre projetos legislativos e poderia utilizar medidas executivas para contornar parte da oposição congressual.

O presidente já sinalizou que pretende bloquear propostas democratas caso os republicanos percam a maioria, antecipando um ambiente de confronto político nos dois últimos anos de seu mandato.

Trump se aproxima de período de perda de influência

Independentemente do resultado eleitoral, Donald Trump se aproxima de uma etapa tradicionalmente marcada pela redução da influência presidencial sobre o sistema político americano.

A Constituição dos Estados Unidos impede que uma mesma pessoa seja eleita presidente mais de duas vezes. Assim, o republicano não poderá disputar um terceiro mandato nas eleições de 2028.

A impossibilidade de nova candidatura transforma gradualmente o foco das disputas partidárias, com aliados e adversários passando a direcionar suas estratégias para a sucessão.

Na política americana, esse fenômeno é conhecido como lame duck, expressão traduzida como “pato manco”, utilizada para caracterizar presidentes em fim de mandato cuja influência tende a diminuir.

“Qualquer presidente em seu segundo mandato torna-se um lame duck após as eleições legislativas de meio de mandato”, ressalta Michael Traugott.

No caso de Trump, entretanto, o comportamento político do presidente torna difícil prever até que ponto essa perda de influência seguirá os padrões tradicionais.

“Não sabemos quais serão as consequências de Trump se tornar um ‘lame duck’, porque ele não dá muita atenção ao Congresso, prefere recorrer a decretos presidenciais”, diz Traugott.

“E não há motivo para acreditar que ele vá reduzir o uso de decretos presidenciais.”

A avaliação indica que uma eventual derrota republicana poderá aumentar os conflitos entre Executivo e Legislativo sem necessariamente provocar uma mudança imediata nas prioridades da Casa Branca.

Lula terá de reconstruir pontes com Washington e antecipar cenário de 2028

Para o Brasil, a eleição americana poderá inaugurar uma fase de maior complexidade diplomática, mas também oferecer alternativas para reduzir o desgaste acumulado na relação bilateral.

A reeleição de Lula preservou no Palácio do Planalto um governo com posições divergentes das defendidas por Trump em temas como soberania, comércio exterior e segurança regional.

Uma possível vitória democrata ampliaria o espaço para interlocução com parlamentares americanos, especialmente em comissões dedicadas à política externa e ao comércio internacional.

Entretanto, qualquer estratégia brasileira precisará considerar que Trump permanecerá na Presidência até janeiro de 2029, conservando importantes instrumentos de decisão.

O governo brasileiro também terá de acompanhar a reorganização das forças políticas americanas para a eleição presidencial de 2028, quando republicanos e democratas disputarão a sucessão do atual presidente.

Kristina Rosales considera que o momento exige uma diplomacia capaz de dialogar simultaneamente com a administração republicana e com as lideranças emergentes em Washington.

“O governo Lula terá de procurar uma melhor relação com o governo Trump, mas ao mesmo tempo também construir pontes e uma relação com novos atores que vão estar se preparando para 2028”, afirma.

“A relação bilateral vai ter que ser construída com várias instituições em mente, levando em conta que o ciclo está mudando nos EUA”, observa Rosales.

O resultado das urnas americanas, portanto, poderá influenciar a margem de negociação do Brasil durante praticamente toda a primeira metade do novo mandato de Lula.

Mais do que definir a composição do Congresso, a eleição desta terça-feira representará um julgamento sobre os rumos da administração Trump e poderá estabelecer os limites políticos de sua atuação até 2029.

Para Brasília, o cenário mais favorável não será necessariamente aquele marcado pela derrota legislativa do presidente americano, mas o que oferecer condições para uma relação bilateral mais previsível, institucional e menos sujeita a confrontos ideológicos.

A capacidade de Lula de administrar essa transição poderá se tornar um dos principais desafios de sua política externa no quarto mandato.

( Com Alessandra Correa
De Washington para a BBC News Brasil )

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