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Saúde

Dormir mais no fim de semana pode reduzir risco de hipertensão, indica estudo

João Oliveira
6 de setembro de 2026 às 08:43
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Dormir mais no fim de semana pode reduzir risco de hipertensão, indica estudo

Foto: Greg Pappas/Unsplash

Pesquisa com cerca de 40 mil adultos encontrou associação entre sono compensatório e menor ocorrência de pressão alta

Um estudo apresentado no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) de 2026 indica que prolongar moderadamente o sono aos sábados e domingos pode estar relacionado a uma menor probabilidade de desenvolver hipertensão. A pesquisa acompanhou aproximadamente 40 mil adultos da Coreia do Sul durante sete anos e avaliou a relação entre a recuperação do sono perdido durante a semana e a ocorrência de pressão alta.

Os participantes que ampliaram o período de sono nos fins de semana apresentaram uma probabilidade cerca de 6% menor de hipertensão em comparação com aqueles que não recuperaram o descanso perdido. Entre os indivíduos sedentários, a diferença foi ainda maior, chegando a 6,9%.

O resultado, contudo, não deve ser interpretado como uma recomendação para restringir o sono durante a semana e tentar compensá-lo posteriormente. A recuperação parcial pode ter algum efeito positivo, mas não substitui uma rotina de descanso adequada e regular.

“Compensar no final de semana é melhor do que nada”, resume o cardiologista Luciano Ferreira Drager, do Hospital Sírio-Libanês. “Mas não é nenhum incentivo para praticar isso. O ideal é que as pessoas respeitem o seu horário de dormir.”

De acordo com Drager, a pesquisa integra uma linha de estudos que busca entender até que ponto o organismo consegue recuperar ou atenuar consequências provocadas pela privação de sono. Investigações anteriores já associaram a extensão do descanso nos fins de semana a alterações metabólicas, diabetes e indicadores relacionados à aterosclerose.

Sono adequado deve ser prioridade

Embora os resultados apontem uma possível vantagem do sono compensatório, o cenário considerado mais saudável continua sendo manter uma quantidade suficiente de descanso diariamente. A extensão do sono durante o fim de semana pode ser particularmente relevante quando compromissos profissionais, acadêmicos, deslocamentos ou responsabilidades familiares reduzem inevitavelmente o tempo disponível para dormir durante a semana.

“O melhor cenário possível é respeitar seu padrão de sono em quantidade, qualidade e regularidade”, afirma Drager. “Mas muitas pessoas têm falta de opção. Se essa é uma realidade inevitável, esses estudos sugerem que a extensão pode trazer benefício.”

Ainda existem, porém, dúvidas sobre a quantidade ideal de horas adicionais. As pesquisas disponíveis não estabeleceram um período de sono compensatório que possa ser considerado adequado para todas as pessoas. Também permanece em aberto se o benefício cardiovascular cresce proporcionalmente ao aumento do tempo de descanso ou se existe um ponto a partir do qual horas adicionais deixam de produzir vantagens.

Segundo Drager, parte dos estudos sugere uma relação entre maior recuperação do sono e melhores resultados, enquanto outras pesquisas indicam que os benefícios podem alcançar determinado limite.

Por que dormir pouco pode elevar a pressão?

A possível associação entre recuperação do sono e menor ocorrência de hipertensão está relacionada às alterações provocadas pela privação de descanso. Quando uma pessoa dorme menos do que necessita, o organismo pode ativar mecanismos associados à resposta ao estresse, incluindo maior liberação de adrenalina.

Essa reação pode afetar o funcionamento dos vasos sanguíneos e favorecer o aumento da pressão arterial. Dessa forma, a repetição de noites com duração inferior à necessidade individual pode contribuir para um cenário de maior risco cardiovascular.

“As evidências mostram que, quando você dorme menos do que o desejado, principalmente menos de seis horas e, em alguns estudos, menos de cinco, ativa uma série de mecanismos”, explica o cardiologista. “Há descarga de adrenalina, alterações nos vasos e liberação de hormônios que contribuem para aumentar a pressão.”

A quantidade necessária de sono, entretanto, não é igual para todos. Drager orienta considerar como referência o número de horas que permite despertar com disposição, manter a capacidade de concentração e atravessar o dia sem sonolência excessiva. Enquanto algumas pessoas conseguem funcionar adequadamente com seis horas de sono, outras necessitam de sete ou oito horas.

O problema tende a surgir quando a duração do descanso permanece, de maneira recorrente, abaixo da necessidade individual.

Sedentarismo pode ampliar a diferença

A prática de atividade física foi um dos fatores que mais chamaram a atenção na análise dos pesquisadores. Ao separar os participantes conforme o nível de exercício, os autores observaram que a associação entre recuperar o sono durante o fim de semana e apresentar menor probabilidade de hipertensão foi mais pronunciada entre os sedentários.

Uma possível explicação está no efeito já conhecido da atividade física sobre a pressão arterial. O exercício regular contribui para a prevenção da hipertensão e também é utilizado como parte das medidas não medicamentosas indicadas para pessoas que já receberam o diagnóstico. Entre seus efeitos estão melhorias na função vascular, no metabolismo e no controle do peso corporal.

“Quando separaram quem era sedentário e quem fazia atividade física regular, eles viram que esse fenômeno de estender o sono poderia trazer mais benefício para aquelas pessoas que estavam sedentárias”, diz Drager. “Naquelas que fazem atividade física, o benefício já estava lá, a atividade física já estava fazendo o seu papel.”

A observação não significa, porém, que dormir por mais tempo possa substituir a prática de exercícios. Para o cardiologista, o sono adequado e a atividade física devem ser considerados conjuntamente dentro de uma estratégia de proteção cardiovascular. Alimentação equilibrada, controle do peso, redução da ingestão de sal e gerenciamento do estresse também integram esse conjunto de medidas.

Uma ou duas horas extras podem ser suficientes?

Os estudos ainda não permitem estabelecer uma recomendação definitiva sobre quantas horas devem ser acrescentadas ao sono durante o fim de semana. Segundo Drager, algumas pesquisas começam a identificar efeitos favoráveis quando a extensão chega aproximadamente a uma hora.

“Meia hora a mais não tem tanto impacto. Os estudos começam a mostrar benefício a partir de uma hora, uma hora e meia”, afirma. “Eu diria que entre uma e duas horas é um período bom para considerar essa extensão.”

Isso não significa que a privação acumulada possa ser anulada por uma espécie de compensação matemática. Uma pessoa que reduz consideravelmente o sono ao longo da semana não necessariamente elimina as consequências desse déficit ao permanecer várias horas a mais na cama no sábado ou no domingo.

Além da duração, a regularidade da rotina de sono exerce papel importante. Mudanças muito acentuadas nos horários de dormir e acordar podem interferir no funcionamento do organismo, mesmo quando a quantidade total de horas dormidas parece suficiente.

“Se você tiver um padrão irregular, dormir cada hora em um momento e estiver dormindo menos, aumenta o risco de eventos”, afirma Drager.

Na avaliação do especialista, os dados atualmente disponíveis não demonstram prejuízo cardiovascular decorrente de uma extensão moderada do sono no fim de semana. Algumas pesquisas, ao contrário, apontam uma possível relação com benefícios à saúde cardiovascular.

Ainda não há, entretanto, evidências conclusivas de que quanto maior for a compensação do sono no fim de semana, maior será necessariamente o benefício.

Apneia pode comprometer a recuperação do sono

A quantidade de horas dormidas também não é o único aspecto determinante para a qualidade do descanso. Distúrbios que provocam interrupções frequentes do sono, como a apneia, podem comprometer seus efeitos reparadores mesmo quando a pessoa permanece mais tempo na cama.

Nessas situações, prolongar o sono aos sábados e domingos não resolve a causa do problema. É necessário identificar e tratar o distúrbio responsável pelas interrupções para melhorar a qualidade do descanso e reduzir seus possíveis impactos sobre o sistema cardiovascular.

(Fonte: Portal Terra)

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