Especialistas apontam riscos de avalanches, deslizamentos e corridas de detritos agravados pelo aquecimento global
Desastre no Himalaia
As inundações que atingiram a fronteira entre Nepal e Tibete deixaram ao menos 330 mortos e 1,5 mil desaparecidos. A análise inicial indicou que não houve um terremoto tectônico: o colapso de uma grande massa de gelo e rocha gerou energia sísmica equivalente a um tremor de magnitude 5,2.
O episódio levantou dúvidas sobre a possibilidade de uma tragédia semelhante na América do Sul. Segundo especialistas, a resposta é positiva, especialmente em áreas montanhosas dos Andes, onde há encostas íngremes, gelo, rios, comunidades e infraestrutura exposta.
Riscos na Cordilheira dos Andes
Bruno Collaço, sismólogo do Centro de Sismologia da USP, explica que desastres desse tipo resultam da combinação de relevo acidentado, gelo em processo de derretimento, lagos glaciais e ocupação humana.
“O que ocorreu no Nepal é o resultado de uma combinação de condições que existe em qualquer cordilheira alta com gelo: relevo muito íngreme e de grande desnível, gelo e permafrost em degradação (o gelo dentro da rocha funciona como um cimento que mantém o maciço coeso), lagos glaciais represados por morainas ou por gelo, e um vale com rio onde há ocupação de pessoas, estradas, hidrelétricas, etc”.
O especialista ressalta que o colapso de uma massa de gelo e rocha não deve ser confundido com o rompimento de um lago glacial.
“São dois caminhos distintos, que produzem consequências parecidas, mas não devem ser confundidos”.
Na América do Sul, áreas do Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Chile e Argentina apresentam condições semelhantes.
“Aqui na América do Sul é possível encontrar essa mesma configuração em Ancash e em Cusco, no Peru; na Cordilheira Real, na Bolívia; em alguns vulcões com gelo no Equador e na Colômbia; e também no Chile e na Argentina. Por exemplo, Mendoza teve o rompimento do lago represado pelo Glaciar Grande del Nevado em 1934, no Río Plomo”.
Países mais expostos
O pesquisador Diogo Coelho, do Observatório Nacional, afirma que praticamente toda a faixa montanhosa dos Andes pode registrar corridas de detritos, fenômenos que transportam lama, rochas e outros materiais em alta velocidade.
“A região andina reúne as condições geológicas e climáticas perfeitas para o desencadeamento das destrutivas corridas de detritos: possui montanhas de altíssima declividade, vales profundos e instabilidade tectônica, tudo isso frequentemente combinado com eventos de chuvas extremas ou degelo acelerado”.
“Praticamente toda a extensão montanhosa andina está sob risco, com destaque para encostas e vales estreitos de países como Colômbia, Venezuela, Peru, Equador e Chile”.
O risco aumenta em áreas ocupadas por cidades e comunidades, sobretudo nos chamados leques aluviais, locais onde os sedimentos e materiais carregados pelas águas tendem a se acumular.
Aquecimento global agrava cenário
O derretimento de geleiras e do permafrost pode enfraquecer estruturas rochosas que permaneceram estáveis por milhares de anos. Para Collaço, essa tendência pode aumentar a frequência de deslizamentos e avalanches.
“Com o aquecimento global, a tendência é que esses eventos aumentem em quantidade, pois o gelo que estabiliza paredes rochosas em grandes altitudes derrete e maciços que estavam estáveis há milhares de anos podem ceder”.
A América do Sul já registrou catástrofes semelhantes. Em 1962, uma avalanche de gelo destruiu Ranrahirca, em Ancash, no Peru, e provocou entre 4 mil e 5 mil mortes. Em 1985, a erupção do Nevado del Ruiz, na Colômbia, derreteu geleiras e gerou fluxos de lama que soterraram Armero, matando mais de 20 mil pessoas.
“Para ilustrar como esse cenário já faz parte da nossa realidade sul-americana, podemos citar duas das maiores tragédias recentes geradas por esse exato fenômeno: A Tragédia de Vargas, na Venezuela, em 1999, e o desastre de Mocoa, na Colômbia, em 2017”.
Sobre a Tragédia de Vargas, Coelho afirma:
“Considerado um dos piores desastres naturais da história da América Latina, o evento foi desencadeado por dias de chuvas torrenciais fora do normal. Encostas inteiras cederam, gerando gigantescos fluxos de detritos que varreram a costa do estado de Vargas, destruindo cidades inteiras, alterando o mapa do litoral e deixando dezenas de milhares de vítimas”.
As estimativas de mortes em Vargas variam entre 10 mil e 30 mil. Em Mocoa, mais de 250 pessoas morreram.
Brasil também enfrenta riscos
Embora os Andes concentrem os maiores riscos de eventos associados a gelo e grandes altitudes, o Brasil também está sujeito a corridas de detritos. No país, os principais fatores são chuvas intensas, encostas inclinadas, retirada da vegetação e ocupação irregular do solo.
“O fenômeno ocorre quando uma mistura de material terroso, água e ar desce muito rapidamente por canais de drenagem de alta declividade. De proporções menores, no Brasil, um país tectonicamente estável, os fluxos de detritos são desencadeados principalmente por deslizamentos de terra provocados por chuvas, sendo a Serra do Mar a principal área de ocorrência, devido às suas encostas íngremes e aos elevados índices pluviométricos”, afirma Coelho.
Entre as maiores tragédias brasileiras estão o desastre da Serra das Araras, em 1967, com estimativa de 2 mil mortos, e a tragédia da Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011, que deixou mais de 900 mortos e quase 100 desaparecidos.
“No Brasil temos que os maiores desastres ambientais são: Serra das Araras (1967), onde as estimativas do número de vítimas calculam um total de 2.000 mortos, sendo 300 vítimas identificadas e cerca de 1.700 desaparecidas nos soterramentos; e a região serrana do Rio de Janeiro (2011), a maior tragédia climática da história do Brasil, quando a chuva que caiu no dia 11 de janeiro de 2011 deixou mais de 900 mortos e quase 100 desaparecidos”.
O pesquisador relaciona a vulnerabilidade brasileira às características naturais e à ação humana.
“Aqui temos condições geológicas favoráveis para isso, devido ao alto volume de chuva e a alta declividade na cadeia de montanhas. Além do uso problemático do solo que retira a vegetação e expõe o material à intempéries”.
Monitoramento não prevê colapso
A ciência ainda não consegue determinar com precisão quando uma geleira, uma massa rochosa ou uma encosta irá se romper. Redes sismográficas, estações meteorológicas, medidores de vazão e modelos matemáticos, porém, podem ajudar a detectar sinais de instabilidade e emitir alertas.
Esses sistemas podem oferecer minutos ou horas de vantagem em alguns cenários, “se houver um sistema montado para isso”. O monitoramento também pode identificar alterações nas encostas, mas não determina o momento exato do rompimento.
“Mas prever quando exatamente vai romper, não é possível”.
Para Coelho, um sistema eficiente deve reunir dados meteorológicos, volume dos rios, histórico de chuvas e informações em tempo real.
“O sistema ideal opera combinando tecnologia de monitoramento em tempo real e o conhecimento dos desastres prévios da região: instalação de estações meteorológicas e medidores de vazão nos rios, modelos matemáticos para comparar em tempo real a chuva, e com base no histórico da região, deve-se estabelecer uma ‘linha limite’ de chuva. Se a precipitação cruza essa linha, o sistema dispara o alerta de que uma corrida de detritos é iminente”.
A instalação e a manutenção dos equipamentos continuam sendo desafios em áreas remotas e de alta altitude.
“As principais limitações estão relacionadas aos equipamentos utilizados nessas regiões, onde dependem de manutenção constante, pois os equipamentos de alta precisão ficam expostos na natureza e exigem conservação rigorosa”.
Além das dificuldades logísticas, alguns eventos não apresentam sinais suficientes para permitir uma antecipação segura.



