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Argentina x Inglaterra reacende memória das Malvinas e eleva tensão antes da semifinal

Missias
14 de julho de 2026 às 09:18
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Argentina x Inglaterra reacende memória das Malvinas e eleva tensão antes da semifinal

Messi encara a Inglaterra pela primeira vez em um duelo cercado de simbolismo histórico — Foto: Justin Setterfield/Getty Images via AFP

Confronto decisivo da Copa do Mundo mobiliza torcedores, reforça rivalidade histórica e leva autoridades a ampliar o esquema de segurança nos Estados Unidos

Scaloni tenta afastar a política do gramado

A classificação da Argentina para a semifinal da Copa do Mundo colocou a seleção diante de um adversário que desperta sentimentos muito além do futebol. Mais de quatro décadas depois da Guerra das Malvinas, o reencontro com a Inglaterra reabre feridas históricas e alimenta um ambiente de tensão entre as duas torcidas.

O peso político do confronto ficou evidente ainda na entrevista coletiva após a vitória argentina nas quartas de final. Ao ser questionado sobre a relação entre a partida e o conflito de 1982, o técnico Lionel Scaloni interrompeu o repórter antes mesmo do fim da pergunta.

“A mensagem é que é uma partida de futebol. Não busquemos mais nada.”

A tentativa de reduzir o duelo a uma disputa esportiva, entretanto, encontra resistência entre os próprios argentinos. Nas ruas de Atlanta, cidade que recebe a semifinal nesta quarta-feira, a rivalidade histórica aparece nas conversas, nas músicas e até na mudança dos planos de viagem dos torcedores.

Matías Marin, de 22 anos, afirmou que decidiu prolongar sua permanência nos Estados Unidos assim que soube que a Inglaterra seria a adversária.

“Já tínhamos que ter voltado para a Argentina. Nossa viagem estava prevista para terminar em Kansas, local da vitória sobre a Suíça, pelas quartas. Mas, quando vimos que seria contra a Inglaterra, movemos o mundo para estender. Nem vamos ficar para a decisão, se passar.”

Malvinas permanecem no imaginário argentino

A disputa pela soberania do arquipélago localizado no Atlântico Sul antecede o surgimento do futebol moderno. Em 1982, a tentativa argentina de retomar o controle das ilhas desencadeou uma guerra contra o Reino Unido, encerrada com a derrota do país sul-americano e a morte de aproximadamente 650 militares argentinos.

O conflito deixou marcas profundas na sociedade e passou a acompanhar também os encontros entre as duas seleções. Durante a atual campanha no Mundial, os torcedores argentinos adotaram uma música segundo a qual o quarto título seria conquistado “pelas Malvinas, por Diego e pela última de Leo”.

Com a Inglaterra no caminho da decisão, o trecho ganhou uma dimensão ainda maior.

Daniel Dure, que havia deixado as Forças Armadas três anos antes da guerra, não esconde a importância simbólica da partida.

“Prefiro perder para o Brasil do que para a Inglaterra, sem dúvidas.”

Em seguida, acrescentou em tom bem-humorado:

“Mas que bom que ultimamente só temos vencido.”

A intensidade desse sentimento, contudo, não é unânime. Parte da torcida defende que o episódio histórico não deve ser utilizado para transformar uma partida de futebol em uma extensão do conflito político.

“Reconheço que há um componente histórico. Mas é só mais um jogo”, afirmou Alexis Morales, de 47 anos. “Não vai mudar o que houve lá atrás. E nem o que ainda precisa acontecer: devolverem as Malvinas.”

Maradona transformou duelo de 1986 em símbolo nacional

Grande parte da carga emocional associada ao confronto nasceu na Copa do Mundo de 1986, no México. Quatro anos depois da guerra, Diego Maradona liderou a Argentina na vitória sobre os ingleses pelas quartas de final.

O camisa 10 marcou os dois gols do triunfo por 2 a 1. O primeiro entrou para a história como a “Mão de Deus”, após Maradona tocar a bola com a mão antes de superar o goleiro Peter Shilton. Poucos minutos depois, o argentino atravessou o campo, driblou adversários e marcou aquele que seria considerado um dos gols mais emblemáticos das Copas.

Na Argentina, a vitória foi interpretada como uma espécie de reparação simbólica. Desde então, cada encontro entre as seleções passou a carregar referências à guerra, ao nacionalismo e à atuação histórica de Maradona.

“A rivalidade com o Brasil é só esportiva. Com os piratas é mais intensa”, declarou Leandro Guerrero, utilizando uma expressão recorrente entre argentinos para se referir aos ingleses e ao passado marítimo britânico.

Brigas em Miami levam autoridades a reforçar segurança

O apelo de Scaloni por serenidade ocorre em meio a sinais concretos de preocupação. No último domingo, torcedores argentinos e ingleses se envolveram em confrontos nas ruas de Miami, onde integrantes das duas comunidades acompanhavam partidas da Copa.

A Argentina possui uma numerosa comunidade na cidade, enquanto milhares de ingleses viajaram para os Estados Unidos para acompanhar a seleção. A concentração das torcidas e o histórico de hostilidade elevaram o nível de alerta das autoridades.

O governo argentino também passou a acompanhar a possibilidade de integrantes de grupos organizados, impedidos de frequentar estádios no país, viajarem para os Estados Unidos. Segundo veículos da imprensa argentina, a fiscalização nos aeroportos foi ampliada.

Representantes argentinos teriam ainda solicitado uma reunião com o FBI e com autoridades policiais de Miami e da Geórgia, estado onde está localizada Atlanta. Entre as medidas discutidas estão o aumento do policiamento nas duas cidades e o reforço da segurança dentro e nos arredores dos estádios.

Alguns torcedores decidiram evitar a camisa da seleção fora da arena para não chamar atenção.

“Estamos com a camisa do Boca Juniors porque achamos que chama menos atenção. Vamos deixar para usar a da Argentina só no estádio”, explicou Bruno Conti, de 25 anos, enquanto caminhava por Atlanta.

“Para eles, as Malvinas não são uma questão como para nós. Mas tem o gol de mão que não aceitam até hoje.”

Messi encara a Inglaterra pela primeira vez

No centro de toda a expectativa está Lionel Messi. Aos 39 anos, o capitão argentino disputará pela primeira vez uma partida contra a Inglaterra pela seleção principal.

Para parte dos torcedores, o encontro representa o último grande capítulo que ainda faltava na trajetória internacional do camisa 10.

“Deus colocou esse jogo no caminho do Messi. Se ainda tinha uma coisa que faltava a ele era ganhar da Inglaterra”, afirmou Gustavo Magnifico, de 53 anos.

Messi e Maradona já são colocados por muitos argentinos no mesmo patamar histórico. Entre os admiradores de Diego, porém, a identificação com as causas nacionais e o protagonismo diante da Inglaterra em 1986 continuam sendo apontados como diferenciais.

Uma vitória de Messi sobre os ingleses, possivelmente em seus últimos jogos com a camisa argentina, poderia reduzir até mesmo a resistência dos torcedores mais antigos.

“Nossos pais preferem o Maradona. Mas acho que, se o Messi ganhar da Inglaterra, até os mais velhos vão se render”, avaliou Bruno Conti.

Enquanto Scaloni procura manter o foco exclusivamente no futebol, as ruas de Atlanta mostram que a semifinal será disputada em várias dimensões. De um lado, estará em jogo uma vaga na final da Copa do Mundo. De outro, mais de 40 anos de memória, ressentimento e orgulho nacional.

( Com O GLOBO )