A ascensão das apostas online entre mulheres brasileiras transformou-se em um fenômeno social com impactos tangíveis nas estruturas familiares, conforme revela o estudo Mulheres & Bets, cujos resultados são apresentados em primeira mão. Segundo a pesquisa, coordenada pelo estúdio Clarice, a consultoria Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa Ideia, 40% das mulheres no país já participaram ou ainda participam de plataformas de apostas digitais — um contingente que ultrapassa a marca simbólica de 4 em cada 10 brasileiras adultas.
A pressão pelo sustento familiar e as redes de influência
Os dados indicam que 67% das entrevistadas atribuem às apostas a deterioração financeira de suas famílias, enquanto 53% mencionam a necessidade de complementar a renda como motivação inicial para ingressar no mercado. A pesquisa revela ainda que 38% das mulheres ingressaram no universo das apostas por meio de indicações de pessoas próximas — amigas, irmãs, primas ou companheiras de igreja —, sistema que, segundo o estudo, é recompensado pelas plataformas com bônus ou créditos adicionais.
O papel das políticas públicas e a urgência de regulação
As descobertas do Mulheres & Bets chegam em um momento de debate sobre a regulamentação do mercado de apostas no Brasil, especialmente após a legalização dos *sportsbooks* em 2023. A cientista política Thaís Pavez, integrante da equipe de pesquisa, alerta para a necessidade de políticas públicas que considerem não apenas os aspectos fiscais, mas também os danos psicossociais decorrentes do vício em jogos. “As mulheres não estão apostando por lazer, mas sim como estratégia de sobrevivência”, ressalta Pavez. A cofundadora do Estúdio Cla, Mariana Ribeiro, complementa: “As plataformas exploram vulnerabilidades emocionais e financeiras, transformando um problema individual em uma crise coletiva”.
Um retrato do Brasil em 2026: entre a crise e a dependência digital
O levantamento, realizado entre março e julho de 2026 com 2.500 mulheres de todas as regiões do país, também aponta que 22% das entrevistadas relataram ter contraído dívidas significativas por conta das apostas, enquanto 14% afirmaram que o hábito afetou diretamente seus relacionamentos conjugais. Os números sugerem que o fenômeno não é passageiro, mas sim um sintoma de uma sociedade pressionada pela inflação, pela precarização do trabalho e pela ausência de políticas de proteção social eficazes.
À medida que o debate sobre o controle do mercado de apostas ganha tração no Congresso, os dados do Mulheres & Bets servem como um alerta: a regulação deve ir além da arrecadação fiscal e incluir mecanismos de prevenção ao vício, especialmente direcionados a grupos historicamente vulnerabilizados, como as mulheres brasileiras.


