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Saúde

Anvisa investiga casos de doença rara ligada à perda de visão entre usuários de canetas emagrecedoras

Redação
27 de setembro de 2026 às 18:12
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Anvisa investiga casos de doença rara ligada à perda de visão entre usuários de canetas emagrecedoras

© Bloomberg

Neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica passou a ser monitorada após estudos indicarem possível associação com medicamentos como semaglutida; ocorrência é considerada muito rara e relação causal ainda está sob investigação

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acompanha 14 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, conhecida pela sigla Noia, em pessoas que utilizam medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, empregados no tratamento de diabetes e obesidade e popularizados como “canetas emagrecedoras”.

Os registros constam no Painel de Notificações de Farmacovigilância da agência e não significam, por si só, que os medicamentos tenham provocado a doença. Tratam-se de relatos submetidos ao sistema de vigilância sanitária para análise de uma eventual relação entre o uso dos fármacos e o evento adverso.

A investigação integra o trabalho de farmacovigilância realizado após a liberação de medicamentos para o mercado. Esse acompanhamento permite identificar reações extremamente incomuns que dificilmente aparecem durante os ensaios clínicos, realizados normalmente com um número muito menor de participantes do que a população que passa a utilizar determinado remédio após sua aprovação.

Entre os medicamentos considerados no levantamento estão a semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy; a tirzepatida; a liraglutida, encontrada no Saxenda e no Victoza; e a dulaglutida, presente no Trulicity.

De acordo com os dados citados pela Anvisa, as notificações de Noia correspondem a aproximadamente 0,12% do total de suspeitas de eventos adversos envolvendo esses medicamentos. Até o momento, os registros não modificaram a avaliação geral de segurança dos tratamentos feita pela autoridade sanitária brasileira.

O que é a Noia

A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica ocorre quando há redução ou interrupção do fluxo de sangue responsável por irrigar o nervo óptico. A alteração pode provocar perda repentina da visão e atingir um ou ambos os olhos.

A condição pode ser irreversível e exige avaliação médica rápida diante de sinais como perda súbita da capacidade visual, visão embaçada ou deterioração acelerada da visão.

A doença passou a receber atenção especial das autoridades regulatórias depois que estudos observacionais e registros feitos após a comercialização dos medicamentos indicaram uma possível associação com a semaglutida.

Em junho de 2025, a Anvisa determinou que a Noia fosse incluída nas bulas como uma reação considerada “muito rara”, classificação utilizada para eventos que podem atingir até uma pessoa a cada 10 mil usuários.

“A decisão foi tomada após análises do Comitê de Avaliação de Risco em Farmacovigilância (PRAC) da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), que identificou a Noia como um possível evento adverso da semaglutida”, informou a agência na ocasião.

Naquele período, a Anvisa também acompanhava 52 notificações de suspeitas de distúrbios oculares relacionados à semaglutida, substância presente em Ozempic e Wegovy.

Estudos apontaram aumento relativo do risco

O tema também passou a ser analisado por autoridades sanitárias internacionais. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) revisou pesquisas epidemiológicas e dados de farmacovigilância antes de recomendar a atualização das informações dos medicamentos comercializados na União Europeia.

Entre os trabalhos avaliados estava um estudo conduzido por pesquisadores ligados à Universidade Harvard, realizado com pacientes atendidos em um hospital especializado em oftalmologia, que apontou aumento do risco de Noia entre usuários da semaglutida.

Segundo a EMA, outros levantamentos de maior dimensão também identificaram uma associação estatística.

“Resultados de diversos estudos epidemiológicos de grande porte sugerem que a exposição à semaglutida em adultos com diabetes tipo 2 está associada a um aumento de aproximadamente duas vezes no risco de desenvolver Noia em comparação com pessoas que não utilizam o medicamento”, disse a EMA, em nota.

Embora os estudos indiquem crescimento do risco relativo, a ocorrência absoluta da doença continua sendo considerada baixa.

OMS também passou a tratar condição como risco potencial

O Comitê Consultivo da Organização Mundial da Saúde sobre Segurança de Medicamentos também avaliou as evidências disponíveis e recomendou que a possibilidade de ocorrência da Noia fosse incorporada às informações de segurança dos medicamentos.

A medida não representa uma contraindicação geral ao uso da semaglutida nem significa que a relação entre o fármaco e todos os casos registrados tenha sido comprovada.

“A OMS está emitindo este alerta de segurança devido ao uso global generalizado da semaglutida e à gravidade da Noia. Além disso, a OMS recebeu relatos individuais de segurança de casos de Noia após a administração de semaglutida de vários países por meio do VigiBase, o banco de dados global de eventos adversos relatados de medicamentos”, escreveu a organização em nota na época.

A ampliação da vigilância ocorre principalmente porque medicamentos à base de GLP-1 passaram a ser utilizados por milhões de pacientes em diferentes países. Com uma exposição populacional muito maior, eventos extremamente raros tornam-se mais perceptíveis aos sistemas de monitoramento.

Anvisa orienta atendimento imediato em caso de alteração visual

A recomendação das autoridades sanitárias é que pacientes em tratamento fiquem atentos a alterações repentinas na visão e procurem atendimento médico diante de qualquer mudança significativa.

“Os profissionais devem alertar seus pacientes sobre este risco, mesmo que raro, e orientá-los sobre os sinais de alerta. Os pacientes que tiverem sintomas como perda repentina de visão, visão turva ou piora rápida da visão durante o tratamento com semaglutida devem procurar atendimento médico imediatamente. Caso a Noia seja confirmada, o tratamento deve ser interrompido”, informou a Anvisa.

A orientação para suspensão do medicamento, portanto, está relacionada à confirmação do diagnóstico e deve ocorrer com acompanhamento profissional.

Fabricantes dizem que relação benefício-risco permanece favorável

A Novo Nordisk, fabricante de Ozempic e Wegovy, afirmou que continua acompanhando os dados relacionados à segurança da semaglutida.

Segundo a companhia, “considerando a totalidade das evidências de ensaios clínicos, relatos pós-comercialização e estudos observacionais, juntamente com a taxa de incidência geralmente baixa de Noia, entende que o perfil de benefício-risco da semaglutida permanece favorável”.

A Eli Lilly, responsável pelo Mounjaro, informou que mantém “discussões contínuas com as autoridades regulatórias sobre possíveis temas de segurança” e que continuará “avaliando os dados, incluindo quaisquer informações relacionadas a questões oftalmológicas”.

“Se alguém apresentar efeitos colaterais ao utilizar um medicamento da Lilly, deve conversar com seu médico ou outro profissional de saúde”, acrescentou a empresa.

Até o momento, portanto, as autoridades tratam a Noia como um evento adverso raro que exige vigilância, mas as notificações existentes não permitem concluir que as chamadas canetas emagrecedoras sejam responsáveis por todos os casos registrados. O acompanhamento permanece em curso enquanto novos dados científicos e relatos de farmacovigilância são analisados.

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