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ANÁLISE POLÍTICA | ELEIÇÕES 2026: Pesquisas eleitorais colocam Lula sob julgamento, mas deixam mandato de Flávio Bolsonaro fora da avaliação

Redação
16 de outubro de 2026 às 10:47
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ANÁLISE POLÍTICA | ELEIÇÕES 2026: Pesquisas eleitorais colocam Lula sob julgamento, mas deixam mandato de Flávio Bolsonaro fora da avaliação

Ilustração IA

Por Jeverson Missias *

Enquanto o presidente é submetido ao desgaste da avaliação de seu governo, o adversário, que exerce mandato no Senado desde 2019, disputa a Presidência sem o mesmo escrutínio sobre seu desempenho parlamentar. Assimetria levanta questionamentos sobre os critérios adotados pelos institutos.

As pesquisas eleitorais se consolidaram como um dos principais instrumentos de aferição da opinião pública e de influência sobre o debate político nacional. Entretanto, um aspecto pouco discutido na divulgação dos levantamentos merece atenção: a diferença de tratamento dispensada aos candidatos que já exercem funções públicas.

Na disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), essa questão ganha relevância. Enquanto o presidente tem sua administração submetida a avaliações de aprovação e desaprovação, o adversário, senador da República desde fevereiro de 2019, não aparece submetido, nos resultados habitualmente divulgados, a uma avaliação equivalente sobre seu desempenho no exercício do mandato parlamentar.

A diferença suscita uma pergunta que deveria interessar tanto aos institutos de pesquisa quanto ao eleitorado: por que o desempenho de um agente público é constantemente colocado à prova, enquanto a atuação parlamentar de outro permanece à margem desse tipo de avaliação?

Dois candidatos, duas formas de cobrança

É legítimo e necessário que a população avalie o governo Lula. Afinal, cabe ao presidente responder pelos resultados de sua administração, pelas políticas econômicas, pelos serviços públicos e pelas decisões que afetam a vida dos brasileiros.

O problema surge quando o mesmo princípio de responsabilização não é aplicado, respeitadas as atribuições de cada cargo, ao adversário que também possui uma trajetória de atuação pública.

Flávio Bolsonaro não é um estreante na política nem alguém que chega à disputa presidencial sem histórico administrativo ou legislativo a ser examinado. Além de sua passagem pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, exerce mandato no Senado Federal há mais de sete anos.

Nesse período, participou de votações, apresentou posicionamentos, integrou debates legislativos e assumiu responsabilidades inerentes à função parlamentar.

Seria razoável, portanto, que os levantamentos também investigassem como a população avalia sua atuação no Congresso Nacional, quais resultados reconhece em seu mandato e qual percepção possui sobre sua contribuição para o país.

Afinal, se a avaliação de um governo é considerada relevante para orientar a escolha do eleitor, por que a avaliação do trabalho de um senador que pretende chegar à Presidência não receberia importância semelhante?

A omissão também interfere na percepção política

A maneira como uma pesquisa é estruturada pode influenciar a compreensão pública da disputa, não apenas pelas respostas obtidas, mas também pelos assuntos escolhidos para investigação.

Quando o eleitor é questionado sobre a aprovação ou desaprovação do governo Lula, passa a considerar diretamente os acertos e erros da atual administração.

Entretanto, quando não é convidado a avaliar o desempenho parlamentar de Flávio Bolsonaro, deixa de ser estimulado, naquele mesmo levantamento, a refletir sobre sua trajetória como representante eleito.

Cria-se, assim, uma assimetria de exposição: um candidato enfrenta o julgamento dos resultados concretos de sua gestão, enquanto o outro pode ser observado predominantemente pela expectativa de mudança que representa.

Essa diferença não significa, por si só, manipulação ou irregularidade. A avaliação de governos possui tradição própria nas pesquisas de opinião, e as responsabilidades do Executivo e do Legislativo são distintas. Também seria necessário examinar os questionários completos de cada levantamento antes de afirmar que determinada pergunta foi deliberadamente excluída.

Mas essas ressalvas não eliminam a questão central: a qualidade da informação oferecida ao eleitor seria maior se o histórico de atuação pública de ambos os concorrentes recebesse escrutínio proporcional às responsabilidades que exerceram.

O que Flávio Bolsonaro fez em sete anos de Senado?

A pergunta é objetiva e inteiramente pertinente ao processo eleitoral.

Quais projetos de sua autoria foram transformados em lei? Que iniciativas tiveram impacto nacional? Como votou nas matérias mais relevantes para a economia, a saúde, a educação e os direitos sociais? Como o eleitor avalia sua produtividade e sua atuação no Congresso?

São questões que permitiriam ir além da popularidade, da identificação ideológica e do peso político do sobrenome Bolsonaro.

Da mesma forma que Lula deve responder pelos resultados de seu governo, Flávio precisa ter sua trajetória parlamentar submetida ao conhecimento e ao julgamento da sociedade.

Não se trata de exigir avaliações idênticas para funções diferentes, mas de assegurar que ambos sejam examinados à luz das responsabilidades públicas efetivamente exercidas.

Pesquisas precisam esclarecer mais do que intenções de voto

A disputa presidencial de 2026 chega ao segundo turno em um cenário de acentuada divisão do eleitorado. Pesquisa Datafolha divulgada em 15 de outubro aponta Flávio Bolsonaro com 51% dos votos válidos e Lula com 49%, diferença dentro da margem de erro.

Nesse ambiente, informações sobre aprovação, desaprovação, rejeição e avaliação de desempenho ganham ainda mais relevância na interpretação do cenário eleitoral.

Os institutos têm autonomia metodológica para definir seus questionários, observadas as exigências legais de registro e transparência. Não existe, nas normas gerais aplicáveis, uma obrigação de incluir avaliações equivalentes de todos os mandatos públicos exercidos pelos candidatos.

Entretanto, a ausência dessa imposição legal não impede uma reflexão sobre a abrangência e o equilíbrio informativo dos levantamentos.

Uma pesquisa eleitoral deve ajudar a sociedade a compreender não apenas em quem pretende votar, mas também quais experiências, resultados e responsabilidades sustentam as candidaturas.

O eleitor precisa conhecer tanto o desempenho de quem governa quanto o histórico de quem pretende governar.

Democracia exige que todos sejam avaliados

A discussão ultrapassa os nomes de Lula e Flávio Bolsonaro. Trata-se de um princípio de transparência e responsabilidade pública que deveria orientar a análise de qualquer disputa eleitoral.

Se um governador busca a reeleição contra um senador, um deputado ou um prefeito, todos possuem trajetórias passíveis de avaliação, embora os indicadores devam respeitar as particularidades de cada função.

Não parece razoável que apenas um deles carregue o peso de sua atuação no serviço público, enquanto os demais sejam examinados essencialmente pelas promessas que apresentam.

O debate também exige atenção dos veículos de comunicação, responsáveis por contextualizar os resultados, esclarecer os limites metodológicos e evitar que informações parciais sejam interpretadas como retratos completos da realidade política.

O que está em discussão não é a legitimidade das pesquisas nem a necessidade de avaliar o governo federal. Ambas são indiscutíveis. O questionamento está na oportunidade de ampliar a cobrança e oferecer ao eleitor instrumentos mais completos de comparação.

Afinal, quem pretende administrar o Brasil não deve ser julgado apenas pelo que promete fazer, mas também pelo que efetivamente realizou enquanto ocupou um cargo público.

A democracia não ganha quando se cobra menos de um candidato. Ganha quando se exige responsabilidade de todos.

* Jeverson Missias é Cientista Político e gestor da Access Pesquisas, sediada em Brasília – DF.

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