Há dias em que a vida me faz parar.
Não porque eu queira.
Mas porque alguma coisa, lá dentro, insiste em me colocar diante do espelho.
E quase sempre a mesma pergunta me visita:
Por que é tão difícil mudar?
Já prometi recomeços em muitas segundas-feiras.
Também fiz pactos silenciosos com o primeiro dia de vários anos.
Acreditei que o amanhã resolveria aquilo que eu não tive coragem de enfrentar hoje.
Mas o amanhã chega.
E, muitas vezes, chega exatamente igual ao ontem.
Durante muito tempo pensei que me faltava disciplina.
Depois imaginei que fosse falta de talento.
Houve dias em que culpei o destino.
Outros, as circunstâncias.
Até descobrir que a verdadeira batalha nunca aconteceu do lado de fora.
Ela sempre esteve dentro de mim.
No gabinete silencioso da minha vontade.
Gosto de imaginar minha mente como um grande edifício.
No térreo mora o desejo.
É ali que nascem os sonhos.
Aprender.
Escrever melhor.
Cuidar da saúde.
Ser uma pessoa melhor.
Mas o desejo apenas desenha a porta.
Quem decide atravessá-la é a vontade.
Nos andares acima trabalham a inteligência, a memória e a imaginação.
A inteligência procura caminhos.
A memória guarda alegrias e cicatrizes.
A imaginação colore os dias.
Mas também inventa desculpas confortáveis.
Quantas vezes confundi distração com descanso?
Quantas vezes troquei coragem por conforto?
Foi então que compreendi que a vontade não marcha como um soldado.
Ela dança.
Às vezes conduz nossos passos.
Outras apenas espera que encontremos o ritmo certo.
Silenciosa.
Discreta.
Quase invisível.
É ela quem transforma sonhos em caminhada.
Meu maior erro sempre foi querer mudar depressa demais.
Queria reformar a vida inteira em um único dia.
Fazia planos perfeitos.
Criava metas enormes.
E me frustrava por ainda estar aprendendo.
Eu queria engolir o elefante inteiro.
Esquecendo que a vida sempre foi feita de pequenas mordidas.
Hoje entendo que minha vontade também precisou amadurecer.
Cresceu devagar.
Assim como eu.
Caiu.
Levantou.
Recomeçou.
E seguiu.
Talvez o maior aprendizado da vida não seja vencer.
Seja continuar.
Vivemos cercados por barulho.
Notificações.
Opiniões.
Comparações.
Expectativas.
No meio de tantas vozes, a nossa quase desaparece.
Descobri que mudar nem sempre significa acrescentar.
Muitas vezes significa retirar.
Menos excesso.
Menos distração.
Mais espaço para aquilo que realmente alimenta a alma.
Também aprendi o valor do silêncio.
Nem todo sonho precisa ser anunciado.
Algumas mudanças florescem melhor quando ninguém está olhando.
Hoje prefiro caminhar em silêncio.
Os resultados têm um jeito muito elegante de falar por nós.
Escrevo estas linhas aos oitenta e um anos.
Passei décadas acreditando que precisava produzir mais.
Conquistar mais.
Chegar mais longe.
Hoje percebo que a vida caminha ao meu lado.
Descobri a beleza de diminuir o passo.
Contemplar.
Descansar sem culpa.
Não porque a vontade tenha desaparecido.
Mas porque ela também amadureceu comigo.
E aprendeu que nem toda batalha precisa ser travada.
Quando penso na verdadeira coragem, lembro-me de minha mãe.
E de tantas outras mães.
Mulheres que nunca precisaram fazer barulho para serem gigantes.
Elas simplesmente continuaram.
Foi observando esse amor silencioso que compreendi que a força mais profunda não grita.
Ela permanece.
Hoje já não espero grandes revoluções.
Confio nas pequenas escolhas repetidas todos os dias.
Talvez a pessoa que passei a vida tentando construir tenha nascido justamente nesses gestos discretos.
Naqueles momentos em que ninguém estava olhando.
E, ao visitar mais uma vez aquele edifício imaginário da minha mente, percebo que suas salas continuam as mesmas.
O que mudou foi a vontade.
Ela já não me empurra.
Nem me apressa.
Apenas segura minha mão.
E me convida a dançar no ritmo da vida.
Porque a vida não foi feita apenas para quem chega.
Foi feita também para quem, depois de uma longa travessia, aprende a contemplar a paisagem.



